JMJ no Panamá: grandes momentos com o Papa

Programa e principais discursos da viagem apostólica do Santo Padre ao Panamá para a XXXIV Jornada Mundial da Juventude (23-28 de janeiro de 2019). Atualizado Segunda, às 18h00.

Da Igreja e do Papa

Viagem apostólica do Papa Francisco ao Panamá por ocasião da XXXIV Jornada Mundial Da Juventude

23-28 de janeiro de 2019

Quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

ROMA-PANAMÁ

9h35 (6h35 no horário de Brasília): Partida do Aeroporto de Roma/Fiumicino para o Panamá

16h30 (19h30 no horário de Brasília) Chegada ao Aeroporto Internacional Tocumen do Panama Recepção oficial

16h50 Deslocamento à Nunciatura Apostólica

Quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

PANAMÁ

9h45 (12h45 no horário de Brasília): Cerimônia de boas-vindas no Palácio das Garças

Visita de cortesia ao Presidente da República no Palácio das Garças

10h40: Encontro com as Autoridades, com o Corpo diplomático e com os Representantes da Sociedade no Palácio Bolivar – Ministério das Relações Exteriores

11h15: Encontro com os Bispos centro-americanos na igreja de São Francisco de Assis

17h30 (20h30 no horário de Brasília): Cerimônia de acolhida e abertura da JMJ no Campo Santa Maria la Antigua – Cinta Costera

Sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

PANAMÁ

10h30 (13h30 no horário de Brasília): Liturgia penitencial com os jovens reclusos no Centro Correcional de Menores Las Garças de Pacora

11h50: Deslocamento de helicóptero à Nunciatura Apostólica

17h30 (20h30 no horário de Brasília): Via-Sacra com os jovens no Campo Santa Maria la Antigua – Cinta Costera

Sábado, 26 de janeiro de 2019

PANAMÁ

9h15 (12h15 no horário de Brasília): Santa Missa com dedicação do altar da Cátedral-Basílica de Santa Maria la Antigua com Sacerdotes, Consagrados e Movimentos Leigos

12h15: Almoço com os jovens no Seminário Maior São José

18h30 (21h30 no horário de Brasília): Vigília com os jovens no Campo São João Paulo II – Metro Park

Domingo, 27 de janeiro de 2019

PANAMÁ-ROMA

8h00 (11h00 no horário de Brasília): Santa Missa na celebração da Jornada Mundial da Juventude no Campo São João Paulo II – Metro Park

10h45: Visita ao Lar do Bom Samaritano

Angelus

16h30: Encontro com os voluntários da JMJ no Estádio Rommel Fernandez

18h00 (21h00 no horário de Brasília): Cerimônia de despedida no Aeroporto Internacional do Panamá

18h15: Partida para Roma

Segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

PANAMÁ-ROMA

11h50

Chegada ao Aeroporto de Roma/Ciampino

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, 20 de novembro de 2018


Cerimônia de acolhida e abertura da JMJ (texto completo traduzido)

Campo Santa María la Antigua – Cinta Costera

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

Queridos jovens, boa tarde!

Como é bom reencontrarmo-nos e fazê-lo nesta terra que nos recebe com tanta cor e calor! Juntos no Panamá, a Jornada Mundial da Juventude é mais uma vez uma festa de alegria e esperança para toda a Igreja e, para o mundo, um grande testemunho de fé.

Lembro que, em Cracóvia, alguns me perguntaram se eu estaria no Panamá; eu respondi: “Não sei, mas Pedro certamente estará lá. Pedro vai estar lá”. Hoje tenho a alegria de dizer: Pedro está com vocês para celebrar e renovar a fé e a esperança. Pedro e a Igreja caminham com vocês e queremos dizer que não tenham medo, que continuem em frente com essa energia renovadora e essa inquietação constante que nos ajuda e mobiliza para sermos mais alegres, mais disponíveis, mais “testemunhas do Evangelho”. Ir em frente, não para criar uma igreja paralela um pouco mais divertida ou cool em um evento para jovens, com algum elemento decorativo, como se isso fizesse vocês felizes. Pensar assim seria não respeitar vocês e não respeitar tudo o que o Espírito está nos dizendo através de vocês.

queremos dizer que não tenham medo, que continuem em frente com essa energia renovadora e essa inquietação constante que nos ajuda e mobiliza para sermos mais alegres, mais disponíveis, mais “testemunhas do Evangelho”

Pelo contrário! Queremos encontrar e despertar com vocês a contínua novidade e juventude da Igreja, abrindo-nos sempre à graça do Espírito Santo que tantas vezes faz um novo Pentecostes (cf. Sínodo dos Jovens, Doc. Final, 60). E isso só é possível, se, como há pouco vivemos no Sínodo, soubermos caminhar escutando-nos e escutar completando-nos uns aos outros, se soubermos testemunhar anunciando o Senhor no serviço aos nossos irmãos; naturalmente, um serviço concreto, não é um serviço de figurinhas, é um serviço concreto. Se vamos caminhar, jovens – sempre jovens como na história da América –, penso em vocês que começaram a caminhar primeiro nesta Viagem, os jovens da juventude indígena: vocês foram os primeiros na América e os primeiros a caminhar neste encontro. Vamos ter uma grande e alta salva de palmas. E também, os jovens da juventude descendente de africanos, também fizeram seu encontro e chegaram antes de nós. Mais uma salva de palmas.

Bem, eu sei que chegar aqui não foi fácil. Conheço o esforço e o sacrifício que fizeram para poder participar desta Jornada. Muitos dias de trabalho, dedicação, encontros de reflexão e oração fazem que o caminho seja – o próprio caminho – a recompensa. O discípulo não é só aquele que chega a um lugar, mas também aquele que começa com decisão, aquele que não tem medo de correr riscos e começar a caminhar. Se alguém começou a andar, já é um discípulo, se você ficar parado, você perdeu. Começar a caminhar, essa é a maior alegria do discípulo: estar na estrada. Você não teve medo de arriscar e caminhar. E hoje podemos “estar de rumba”, porque essa rumba começou há muito tempo e em cada comunidade.

Acabamos de ouvir na apresentação, nas bandeiras, que viemos de culturas e povos distintos, falamos línguas diferentes, vestimos roupas diferentes. Cada um dos nossos povos viveu histórias e circunstâncias diferentes. Quantas coisas podem nos diferenciar! Mas nada disso impediu que pudéssemos nos encontrar e ficar juntos, divertindo-nos juntos, celebrando juntos, confessando Jesus Cristo juntos, nenhuma diferença nos deteve. E isso é possível porque sabemos que há alguém que nos une, que nos faz irmãos. Vocês, queridos amigos, fizeram muitos sacrifícios para poder se encontrar, tornando-se assim verdadeiros mestres e artesãos da cultura do encontro, que não é: “Olá, como vai, adeus, até logo”.

"O amor verdadeiro não anula as diferenças legítimas, mas harmoniza-as numa unidade superior" (Bento XVI)

Não, a cultura do encontro é o que nos faz caminhar juntos a partir de nossas diferenças, mas com um amor, todos juntos no mesmo caminho. Vocês, com os seus gestos e com as suas atitudes, com o olhar, os seus desejos e especialmente com a sua sensibilidade, desmentem e recusam todos estes discursos que se concentram e empenham em semear divisão, em excluir e expulsar os que ‘não são como nós’. Como em vários países da América, dizemos: “Eles não são GCU*, pessoas como nós”. Vocês desmentem isso, todos são pessoas como nós, todos com nossas diferenças. Porque vocês têm um olfato capaz de intuir que ‘o amor verdadeiro não anula as diferenças legítimas, mas harmoniza-as numa unidade superior’. Repito: ‘o amor verdadeiro não anula as diferenças legítimas, mas harmoniza-as numa unidade superior’. Sabem quem disse isso? Sabem? O Papa Bento XVI que está nos vendo pela televisão e nós vamos aplaudi-lo, nós lhe enviamos uma saudação, todos, todos com as mãos, para o Papa Bento XVI.

Pelo contrário, sabemos que o pai da mentira, o demônio, sempre prefere um povo dividido e brigado, é o mestre da divisão e tem medo de um povo aprende a trabalhar junto. E este é um critério para distinguir as pessoas: construtores de pontes e construtores de muros, aqueles construtores de muros que, semeando medos, procuram dividir e amedrontar as pessoas. Vocês querem ser construtores de pontes, o que querem ser? [Os jovens respondem: “Construtores de pontes”]. Vocês aprenderam bem, eu gosto.

Vocês nos ensinam que o encontro não significa mimetismo, nem que todos pensem da mesma forma ou viver todos da mesma maneira, fazendo e repetindo as mesmas coisas, isso é o que os louros fazem, os papagaios. Encontrar-se é se animar a outra coisa, é entrar nessa cultura do encontro, é um chamado e um convite a ousar manter vivo e juntos um sonho comum. Temos muitas diferenças, falamos línguas diferentes, todos nos vestimos de maneira diferente, mas, por favor, procuremos ter um sonho comum, e isso podemos fazer, e isso não nos anula, nos enriquece. Um grande sonho e um sonho capaz de abrigar a todos. Aquele sonho pelo qual Jesus deu a sua vida na cruz e o Espírito Santo se espalhou e tatuou com fogo no dia de Pentecostes no coração de cada homem e mulher, no coração de cada um, no seu, no seu, no seu, no seu, no seu, no meu, também no seu, tatuou-o na espera de que ele encontre espaço para crescer e se desenvolver. Um sonho, um sonho chamado Jesus semeado pelo Pai, Deus como Ele – como o Pai –, enviado pelo Pai com a confiança que crescerá e viverá em cada coração. Um sonho concreto, que é uma pessoa, que percorre nossas veias, sacode o coração e o faz dançar cada vez que ouvimos: “amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos”. Qual é o nome do nosso sonho? Não ouço [Os jovens respondem: Jesus] Não ouço [Os jovens repetem: Jesus] Não ouço [Os jovens repetem: Jesus].

“O cristianismo não é um conjunto de verdades para se acreditar, nem de leis para se observar nem de proibições. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto, que reivindica e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo” (Oscar Romero)

Um santo destas terras, ouçam isto, um santo destas terras gostava de dizer: “O cristianismo não é um conjunto de verdades para se acreditar, nem de leis para se observar nem de proibições. Visto assim, seria muito repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto, que reivindica e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo” (cf. S. Oscar Romero, Homilia, 6 de Novembro de 1977). Vamos dizer todos juntos? [Os jovens repetem: O cristianismo é Cristo]. Novamente [Os jovens repetem: O cristianismo é Cristo]. Novamente [Os jovens repetem: O cristianismo é Cristo]. É Cristo, é desenvolver o sonho pelo qual Ele deu a Sua vida: amar com o mesmo amor com que Ele nos amou. Ele não nos amou pela metade, não nos amou um pouquinho, nos amou totalmente, encheu-nos de ternura, de amor, deu a sua vida.

Perguntamo-nos: O que nos mantém unidos? Por que estamos unidos? O que nos move a encontrar-nos? Sabem o que é que mantém vocês unidos? É a certeza de saber que fomos amados, que fomos amados com um amor íntimo que não queremos e não podemos calar, um amor que nos desafia a responder da mesma maneira: com amor, que é o amor de Cristo que nos impele (cf. 2 Cor 5, 14).

Reparem: o amor que nos une é um amor que não se impõe nem esmaga, um amor que não marginaliza nem se cala, um amor que não humilha nem subjuga. É o amor do Senhor: um amor diário, discreto e respeitador, amor feito de liberdade e para a liberdade, amor que cura e eleva. É o amor do Senhor, que entende mais de levantadas que de quedas, de reconciliação que de proibições, de dar nova oportunidade que de condenar, de futuro que de passado. É o amor silencioso da mão estendida no serviço e na doação sem se vangloriar, que não dá uma de pavão, esse amor humilde que se dá aos outros sempre com a mão estendida, que é o amor que hoje nos une.

Pergunto: Você acredita neste amor? [Os jovens respondem: Sim]. Faço outra pergunta: Você acha que esse amor vale a pena? [Os jovens respondem: Sim]. Jesus uma vez disse a uma pessoa que fez uma pergunta, e Jesus respondeu e terminou dizendo: “Bem, se você acredita, vá e faça o mesmo”. Em nome de Jesus, eu digo a vocês: “vão e façam o mesmo”. Não tenham medo de amar, não tenham medo desse amor concreto, desse amor que tem ternura, desse amor que é serviço, desse amor que gasta a vida.

Não tenham medo de amar, não tenham medo desse amor concreto, desse amor que tem ternura, desse amor que é serviço, desse amor que gasta a vida.

E esta foi a mesma pergunta e o convite que Maria recebeu. O anjo perguntou se queria levar este sonho em suas entranhas, se queria torná-lo vida, torná-lo carne. Maria tinha a idade de tantos de vocês, a idade de tantas meninas como vocês. E Maria disse: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Fechemos todos os olhos e pensemos em Maria; ela não era boba, sabia o que o seu coração sentia, sabia o que era o amor e respondeu: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Neste pequeno momento de silêncio que Jesus diz a cada um, a você, a você, a você, a você, a você, a você, a você, a você: “Você se anima? Quer?” Pensa em Maria e responde: “Quero servir o Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Maria animou-se a dizer “sim”. Ela se animou a dar vida ao sonho de Deus. E é isto que hoje nos pergunta: Você quer dar carne com as suas mãos, com os seus pés, com o seu olhar, com o seu coração, ao sonho de Deus? Quer que seja o amor do Pai a abrir novos horizontes e a levar você por caminhos nunca imaginados, nunca pensados, sonhados ou esperados que fazem você feliz e fazem o seu coração cantar e dançar?

Animamo-nos a dizer ao anjo, como Maria: Eis aqui os servos do Senhor, faça-se? Não respondam aqui, cada um responde em seu coração. Há perguntas que só são respondidas em silêncio.

Há perguntas que só são respondidas em silêncio.

Queridos jovens, a coisa mais esperançosa desta Jornada não será um documento final, uma carta de consenso ou um programa a ser realizado. Não, isso não vai acontecer. O que mais dará esperança neste encontro serão os seus rostos e uma oração. Isso dará esperança. Com o rosto com que voltem para casa, com o coração mudado com que voltem para casa, com a oração que aprenderam a fazer com esse coração mudado. O que mais dará esperança neste encontro serão os seus rostos, a sua oração e cada um voltará para casa com aquela força nova que se gera sempre que nos encontramos com os outros e com o Senhor, cheios do Espírito Santo para recordar e manter vivo aquele sonho que nos torna irmãos e que estamos convidados a não deixá-lo congelar no coração do mundo: onde estivermos, fazendo o que estamos fazendo, poderemos sempre levantar os olhos e dizer: Senhor, ensina-me a amar como nos amaste – vocês se animam a repetir comigo? Senhor, ensina-me a amar como nos amaste. [Os jovens repetem simultaneamente ao Papa]. De novo: Senhor, ensina-me a amar como nos amaste. Mais alto, estão roucos. [Senhor, ensina-me a amar como nos amaste].

Bem, como queremos ser bons e educados, não podemos terminar este primeiro encontro sem agradecer. Obrigado a todos aqueles que prepararam, com grande entusiasmo, esta Jornada Mundial da Juventude. Obrigado por terem tido a coragem de construir e hospedar, por terem dito ‘sim’ ao sonho de Deus que é ver os seus filhos reunidos. Obrigado, Monsenhor Ulloa e toda sua equipe por ajudar a fazer do Panamá hoje não só um canal que une os mares, mas também um canal onde o sonho de Deus continua a encontrar canais para crescer, multiplicar-se e irradiar em todos os cantos da terra.

Amigos, que Jesus vos abençoe, desejo-o de todo o coração. Que Santa Maria, la Antigua, os acompanhe e cuide, para sermos capazes de dizer sem medo, como ela: “Aqui estou. Faça-se”. Obrigado.


* GCU: gente como uno em espanhol; a tradução seria pessoas como a gente.


Via-Sacra com os jovens

Campo Santa Maria la Antigua – Faixa Costera (Panamá)

Sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Queridos jovens de todo o mundo!

Caminhar com Jesus será sempre uma graça e um risco.

Uma graça, porque nos compromete a viver na fé e a conhecê-Lo, penetrando nas profundezas do seu coração, compreendendo a força da sua palavra.

Um risco, porque, em Jesus, as suas palavras, os seus gestos, as suas ações contrastam com o espírito do mundo, a ambição humana, as propostas duma cultura do descarte e da falta de amor.

Há uma certeza que enche de esperança esta via-sacra: Jesus percorreu-a com amor; e a Virgem Gloriosa também a viveu, Ela que, desde o início da Igreja, quis sustentar com a sua ternura o caminho da evangelização.

Senhor, Pai de misericórdia, nesta Faixa Costeira, juntamente com tantos jovens vindos de todo o mundo, acabamos de acompanhar o vosso Filho no caminho da cruz; caminho esse, que Ele quis percorrer por nós, para nos mostrar quanto Vós nos amais e como estais envolvido na nossa vida.

O caminho de Jesus para o Calvário é um caminho de sofrimento e solidão que continua nos nossos dias. Ele caminha e sofre em tantos rostos que padecem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade, sociedade que consome e que se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.

Também nós, vossos amigos, Senhor, nos deixamos levar pela apatia e o imobilismo. Tantas vezes o conformismo nos derrotou e paralisou. Foi difícil reconhecer-Vos no irmão sofredor: desviamos o olhar, para não ver; refugiamo-nos no barulho, para não ouvir; tapamos a boca, para não gritar.

Sempre a mesma tentação. É mais fácil e “remunerador” ser amigo nas vitórias e na glória, no sucesso e no aplauso; é mais fácil estar próximo a quem é considerado popular e vencedor.

Para Vós, Senhor, não é assim, porque quisestes abraçar todos aqueles que muitas vezes consideramos não dignos de um abraço, uma carícia, uma bênção.

Como é fácil cair na cultura do bullying, do assédio, da intimidação, do encarniçamento sobre quem é fraco!

Para Vós, Senhor, não é assim! Na cruz, identificastes-Vos com todo o sofrimento, com quem se sente esquecido.

Para Vós, Senhor, não é assim, porque quisestes abraçar todos aqueles que muitas vezes consideramos não dignos de um abraço, uma carícia, uma bênção; ou, pior ainda, nem nos damos conta de que precisam disso, ignoramo-los.

Para Vós, Senhor, não é assim! Na cruz, unistes-Vos à via-sacra de cada jovem, de cada situação para transformá-la numa via de ressurreição.

Pai, hoje a via-sacra do vosso Filho…

prolonga-se no grito sufocado das crianças impedidas de nascer e de tantas outras a quem se nega o direito de ter uma infância, uma família, uma instrução; nas crianças que não podem brincar, cantar, sonhar;

prolonga-se nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e ignoradas na sua dignidade;

e nos olhos tristes dos jovens que veem ser arrebatadas as suas esperanças de futuro por falta de instrução e trabalho digno;

prolonga-se na angústia de rostos jovens, nossos amigos, que caem nas redes de pessoas sem escrúpulos – entre elas, encontram-se também pessoas que dizem servir-Vos, Senhor –, redes de exploração, criminalidade e abuso, que se alimentam das suas vidas.

A via-sacra do vosso Filho prolonga-se nos jovens com rostos franzidos que perderam a capacidade de sonhar

A via-sacra do vosso Filho prolonga-se em tantos jovens e famílias que, absorvidos numa espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico humano, ficam privados não só do futuro, mas também do presente. E, assim como dividiram as vossas vestes, Senhor, acaba dividida, maltratada a sua dignidade.

A via-sacra do vosso Filho prolonga-se nos jovens com rostos franzidos que perderam a capacidade de sonhar, criar e inventar o amanhã e “passam à aposentadoria” com o dissabor da resignação e do conformismo, uma das drogas mais consumidas no nosso tempo.

Prolonga-se na dor escondida e indignada de quantos, em vez de solidariedade por parte duma sociedade repleta de abundância, encontram rejeição, sofrimento e miséria, e, além disso, acabam marcados e tratados como portadores e responsáveis de todo o mal social.

A paixão do vosso Filho prolonga-se na solidão resignada dos idosos, que deixamos abandonados e descartados.

Prolonga-se nos povos nativos, despojados das suas terras, das suas raízes e da sua cultura, silenciando e apagando toda a sabedoria que têm e nos podem oferecer.

Pai, a via-sacra do vosso Filho prolonga-se no grito da nossa mãe Terra, que é ferida nas suas entranhas pela contaminação da atmosfera, a esterilidade dos seus campos, o lixo das suas águas, e se vê espezinhada pelo desprezo e o consumo enlouquecido que ignora razões.

Prolonga-se numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se à vista do sofrimento.

Sim, Pai! Jesus continua a caminhar, carregar e padecer em todos estes rostos enquanto o mundo, indiferente e num cômodo cinismo, consuma o drama da sua própria frivolidade.

E nós, Senhor, que fazemos?

Como reagimos à vista de Jesus que sofre, caminha, emigra no rosto de tantos amigos nossos, de tantos desconhecidos que aprendemos a tornar invisíveis?

E nós, Pai de misericórdia…

consolamos e acompanhamos o Senhor, inerme e sofredor, nos pequenos e abandonados?

ajudamo-Lo a carregar o peso da cruz, como o Cireneu, fazendo-nos operadores de paz, criadores de alianças, fermento de fraternidade?

Temos a coragem de permanecer ao pé da cruz, como Maria?

Contemplemos Maria, mulher forte. D’Ela, queremos aprender a ficar de pé junto da cruz. Com a sua mesma decisão e coragem, sem evasões nem miragens. Ela soube acompanhar o sofrimento de seu Filho, vosso Filho, ó Pai, apoiá-Lo com o olhar e protegê-Lo com o coração. Que dor sofreu! Mas não A abateu. Foi a mulher forte do “sim”, que apoia e acompanha, protege e abraça. É a grande guardiã da esperança.

Pai, também nós queremos ser uma Igreja que apoia e acompanha, que sabe dizer: estou aqui, na vida e nas cruzes de tantos cristos que caminham ao nosso lado.

De Maria, aprendemos a dizer “sim” à resistência forte e constante de tantas mães, tantos pais, avós que não cessam de apoiar e acompanhar os seus filhos e netos quando estão com problemas.

D’Ela, aprendemos a dizer “sim” à paciência obstinada e à criatividade daqueles que não desanimam e recomeçam do princípio nas situações em que tudo parece estar perdido, procurando criar espaços, ambientes familiares, centros de atenção que sejam uma mão estendida nas dificuldades.

Em Maria, aprendemos a força para dizer “sim” àqueles que não se calaram nem calam perante uma cultura dos maus-tratos e abuso, do descrédito e agressão, e trabalham para proporcionar oportunidades e condições de segurança e proteção.

Em Maria, aprendemos a acolher e hospedar todos aqueles que foram abandonados, que tiveram de sair ou perder a sua terra, as raízes, a família, o emprego.

Pai, como Maria, queremos ser Igreja, a Igreja que favoreça uma cultura que saiba acolher, proteger, promover e integrar; que não estigmatize e, menos ainda, generalize com a condenação mais absurda e irresponsável que é ver todo o migrante como portador do mal social.

D’Ela, queremos aprender a estar de pé junto da cruz, não com um coração blindado e fechado, mas com um coração que saiba acompanhar, que conheça a ternura e o devotamento; que entenda de compaixão para tratar com respeito, delicadeza e compreensão. Queremos ser uma Igreja da memória, que respeite e valorize os idosos e reclame para eles o lugar que lhes é devido, como guardiões das nossas raízes.

Pai, como Maria, queremos aprender a “estar”.

Ensinai-nos, Senhor, a estar ao pé da cruz, ao pé das cruzes; despertai nesta noite os nossos olhos, o nosso coração; resgatai-nos da paralisia e da confusão, do medo e do desespero. Pai, ensinai-nos a dizer: estou aqui juntamente com o vosso Filho, juntamente com Maria e juntamente com tantos discípulos amados que desejam acolher o vosso Reino no coração. Amém.


E, depois de termos vivido a Paixão do Senhor, juntamente com Maria ao pé da cruz, partimos com o coração silencioso e em paz, feliz e com uma vontade imensa de seguir Jesus. Que Jesus vos acompanhe e a Virgem vos proteja. Até à próxima!


Vigília com os jovens

(Metro Park, 26 de janeiro de 2019)


Queridos jovens, boa noite!

Acabamos de ver este belo espetáculo sobre a Árvore da Vida, que mostra como a vida que Jesus nos dá é uma história de amor, uma história de vida que quer misturar-se com a nossa e criar raízes na terra de cada um. Essa vida não é uma salvação suspensa “na nuvem” – no disco virtual – à espera de ser descarregada, nem uma nova “aplicação” para descobrir, ou um exercício mental fruto de técnicas de crescimento pessoal. Nem sequer um “tutorial” com o qual apreender as últimas novidades. A salvação, que o Senhor nos dá, é um convite para participar numa história de amor, que está entrelaçada com as nossas histórias; que vive e quer nascer entre nós, para podermos dar fruto onde, como e com quem estivermos. Precisamente aí vem o Senhor plantar e plantar-Se a Si mesmo; Ele é o primeiro a dizer “sim” à nossa vida, à nossa história e quer que também nós digamos “sim” juntamente com Ele. Ele sempre nos primereia, chega antes.

A vida que Jesus nos dá é uma história de amor, uma história de vida que quer misturar-se com a nossa e criar raízes na terra de cada um.

E assim surpreende Santa Maria, convidando-A para fazer parte desta história de amor. Sem dúvida, a jovem de Nazaré não aparecia nas “redes sociais” de então, não era uma influencer – uma influenciadora digital – mas, sem querer o procurar, tornou-Se a mulher que maior influência teve na história. E podemos dizer, com confiança de filhos: Maria, a influencer de Deus. Com poucas palavras, soube dizer “sim”, confiando no amor e nas promessas de Deus, única força capaz de fazer novas todas as coisas. E todos nós hoje temos que fazer algo novo dentro de nós, hoje temos que deixar que Deus renove algo no meu coração. Pensemos um pouquinho: o que quero que Deus renove no meu coração?

Sempre impressiona a força do “sim” desta jovem, daquele “faça-se em Mim” que disse ao anjo. Foi uma coisa diferente duma aceitação passiva ou resignada, ou dum “sim” como quando se diz: “Bem; vamos tentar para ver o que acontece”. Maria não conhecia esta expressão: vamos ver se dá. Foi algo mais, uma coisa diferente. Foi o “sim” de quem quer comprometer-se e arriscar, de quem quer apostar tudo, sem ter outra garantia além da certeza de saber que é portadora duma promessa. E eu pergunto a cada um de vocês: se sentem portadores de uma promessa? Que promessa tenho no meu coração para levar adiante? Sem dúvida Maria teria uma missão difícil, mas as dificuldades não eram motivo para dizer “não”. Com certeza teria complicações, mas não seriam as mesmas complicações que se acontecem quando a covardia nos paralisa por não vermos, antecipadamente, tudo claro ou garantido. Maria não fez um seguro de vida! Maria arriscou e por isso é forte, por isso é uma influencer, é a influencer de Deus! O “sim” e o desejo de servir foram mais fortes do que as dúvidas e dificuldades.

Esta noite ouvimos também como o “sim” de Maria ecoa e se multiplica de geração em geração. Seguindo o exemplo de Maria, muitos jovens arriscam e apostam, guiados por uma promessa. Obrigado, Erika e Rogelio, pelo testemunho que nos deram. Foram valentes: merecem um aplauso. Obrigado. Vocês compartilharam os seus medos, dificuldades e todo o risco que viveram à espera da sua filha Inês. Em um momento, disseram: “A nós, pais, por várias razões, custa muito aceitar a chegada dum bebê com alguma doença ou deficiência”. Isso é verdade e compreensível! O fato surpreendente, porém, está no que acrescentaram: “Quando nasceu a nossa filha, decidimos amá-la com todo o nosso coração”. Antes da sua chegada, perante todas as notícias e dificuldades que surgiram, vocês tomaram uma decisão e disseram como Maria “faça-se em nós”, decidiram amá-la. Face à vida de sua filha frágil, inerme e necessitada, a resposta foi um “sim” e, deste modo, temos Inês. Vocês acreditaram que o mundo não é só para os fortes! Obrigado!

Dizer “sim” ao Senhor é ter a coragem de abraçar a vida como vem, com toda a sua fragilidade e pequenez e, muitas vezes, até com todas as suas contradições e insignificâncias, abraçá-la com o mesmo amor que Erika e Rogelio nos contaram. Assumir a vida como ela vem. É abraçar a nossa pátria, as nossas famílias, os nossos amigos como são, mesmo com as suas fragilidades e ninharias. Damos também provas de que se abraça a vida, quando acolhemos tudo o que não é perfeito, puro ou destilado, mas por isso não menos digno de amor. Porventura alguém, pelo fato de ser portador de deficiência ou frágil, não é digno de amor? Pergunto: uma pessoa deficiente, uma pessoa frágil, é digna de amor? [Sim!] Entenderam. Outra pergunta, vamos ver como respondem. Alguém, pelo fato de ser estrangeiro, ter errado, encontrar-se doente ou numa prisão, é digno de amor? [Sim!] Assim fez Jesus: abraçou o leproso, o cego e o paralítico, abraçou o fariseu e o pecador. Abraçou o ladrão na cruz, abraçou e perdoou até àqueles que O estavam crucificando.

Por quê? Porque só se pode salvar aquilo que se ama. Vocês não podem salvar uma pessoa, uma situação, se não a amam. Só se pode salvar o que se ama. Repetimos? [Só se pode salvar o que se ama!] Não esqueçamos. Por isso somos salvos por Jesus, porque nos ama e não pode deixar de fazê-lo. Podemos aprontar mil e uma, mas nos ama e nos salva. Porque só que se ama pode ser salvo. Só o que se abraça pode ser transformado. O amor do Senhor é maior que todas as nossas contradições, fragilidades e ninharias, mas é precisamente através das nossas contradições, fragilidades e ninharias que Ele quer escrever esta história de amor. Abraçou o filho pródigo, abraçou Pedro depois das suas negações e abraça-nos sempre, sempre, depois das nossas quedas, ajudando-nos a levantar e ficar de pé. Porque a verdadeira queda – atenção a isso – a verdadeira queda, aquela que pode arruinar a nossa vida, é ficar no chão e não se deixar ajudar. Tem uma música alpina muito bonita, que vão cantando enquanto sobrem a montanha “Na arte da subida, a vitória não está em não cair, mas em não ficar caído”. Não ficar caído... Dar a mão para que o levantem. Não ficar caído.

O primeiro passo é não ter medo de receber a vida como ela vem, não ter medo de abraçar a vida como ela é. Esta é a árvore da vida que vimos hoje.

Obrigado, Alfredo, pelo seu testemunho e a coragem de o partilhar com todos nós. Fiquei muito impressionado quando você disse: “Comecei a trabalhar na construção até que terminou aquele projeto. Sem emprego, as coisas complicaram-se: sem escola, sem ocupação e sem trabalho”. Resumo-o nos quatro “sem” que deixam a nossa vida sem raízes e ela seca: sem trabalho, sem instrução, sem comunidade, sem família. Estes quatro “sem” matam.

É impossível uma pessoa crescer, se não possui raízes fortes que a ajudem a estar firme de pé e agarrada à terra. É fácil extraviar-se, quando não temos onde firmar-nos. Esta é uma questão que nós, mais velhos, devemos nos colocar, os mais velhos que estamos aqui. Mais, é uma questão que vocês deveriam colocar a nós e nós temos o dever de responder: Que raízes estamos dando a vocês? Quais são as bases que estamos oferecendo para vocês se construírem como pessoas? Como é fácil criticar os jovens e passar o tempo murmurando, se os deixamos sem oportunidades laborais, educativas e comunitárias a que agarrar-se para sonhar o futuro! Sem instrução, é difícil sonhar o futuro; sem trabalho, é muito difícil sonhar o futuro; sem família nem comunidade, é quase impossível sonhar o futuro. Porque sonhar o futuro é aprender a responder não só porque vivo, mas também para quem vivo, por quem vale a pena gastar a vida. E isso nós temos que facilitar, os mais velhos, dando-lhes trabalho, educação, comunidade, oportunidades.

Como nos dizia Alfredo, quando uma pessoa se desencaixa e fica sem trabalho, sem instrução, sem comunidade e sem família, no fim do dia sente-se vazia e acaba preenchendo aquele vazio com qualquer coisa. Porque já não sabemos para quem viver, lutar e amar. Pergunto aos mais velhos que estão aqui, e aos que estão nos vendo: O que você faz para gerar um futuro, um desejo de futuro nos jovens de hoje? Você é capaz de lutar para que eles tenham educação, para que eles tenham trabalho, para que eles tenham família, para que eles tenham uma comunidade? Cada um dos mais velhos procure se responder no coração.

Lembro-me que uma vez, conversando com alguns jovens, me perguntaram: “Padre, porque é que hoje muitos jovens não se interrogam se Deus existe, ou sentem dificuldade em crer n’Ele e evitam comprometer-se na vida?” Respondi: “E vocês, o que acham?” Dentre as respostas que surgiram na conversa, recordo uma que me tocou o coração e está relacionada com a experiência que Alfredo partilhou: “Porque muitos deles sentem que, para os outros, pouco a pouco deixaram de existir, frequentemente sentem-se invisíveis”. Muitos jovens sentem que deixaram de existir para outros, para a família, para a sociedade, para a comunidade..., e então muitas vezes se sentem invisíveis. É a cultura do abandono e da falta de consideração. Não digo todos, mas muitos sentem que não têm nem muito nem pouco para dar, por falta de espaços reais que os convoquem a isso. Como hão de pensar que Deus existe se eles há muito que deixaram de existir para seus irmãos e para a sociedade? Assim, estamos empurrando-os a não olhar para o futuro. E cair nas garras de qualquer droga, de qualquer coisa que os destrua. Podemos nos perguntar: o que eu faço com os jovens que vejo? Eu critico-os, ou eles não me interessam? Eu os ajudo, ou eles não me interessam? É verdade que para mim eles deixaram de existir faz tempo?

Sabemos bem que não basta estar conectado o dia inteiro para se sentir reconhecido e amado. Sentir-se considerado e convidado a algo é mais do que permanecer “em rede”. Significa encontrar espaços onde vocês possam, com as suas mãos, com o seu coração e com a sua cabeça, sentir-se parte de uma comunidade maior que precisa de vocês e, vice-versa, vocês precisam dela também.

Isto, compreenderam-no muito bem os santos. Penso, por exemplo, em São João Bosco, que não foi procurar os jovens em qualquer lugar distante ou especial, mas aprendeu a olhar, a ver tudo o que acontecia na cidade com os olhos de Deus, e assim o seu coração foi atingido com as centenas de crianças e jovens abandonados, sem escola, sem trabalho e sem a mão amiga duma comunidade. Havia muita gente que vivia naquela mesma cidade, e muitos criticavam aqueles jovens, mas não sabiam vê-los com os olhos de Deus. É preciso olhar para os jovens com os olhos de Deus. João Bosco fez isso e animou-se a dar o primeiro passo: abraçar a vida como ela se apresenta; e, a partir daí, não teve medo de dar o segundo: criar com eles uma comunidade, uma família onde se sentissem amados com trabalho e estudo, ou seja, dar-lhes raízes a que agarrar-se para poderem chegar ao céu. Para poderem ser alguém na sociedade. Dar raízes para se segurarem e não serem derrubados pelo primeiro vento que vem. É o que fez Dom Bosco, foi o que fizeram os santos, é o que fazem as comunidades que sabem olhar os jovens com os olhos de Deus. Vocês, os adultos, sentem-se animados a olhar para os jovens com os olhos de Deus? [Sim!]

Penso em muitos lugares da nossa América Latina onde se promove a chamada família grande lar de Cristo, com o mesmo espírito da Fundação João Paulo II de que nos falava Alfredo, e muitos outros centros, que procuram receber a vida como ela vem na sua totalidade e complexidade, porque sabem que “para a árvore há uma esperança: cortada, pode ainda reverdecer e deitar novos rebentos” (Jó 14, 7).

E sempre é possível “reverdecer e dar novos rebentos”, quando há uma comunidade, o calor duma casa onde criar raízes, que oferece a confiança necessária e prepara o coração para descobrir um novo horizonte: horizonte de filho amado, procurado, encontrado e dedicado a uma missão. O Senhor torna-Se presente por meio de rostos concretos. Dizer “sim” a esta história de amor é dizer “sim” como instrumentos para construir, nos nossos bairros, comunidades eclesiais capazes de percorrer as estradas da cidade, abraçando e tecendo novas relações. Ser um influencer no século XXI significa ser guardião das raízes, guardião de tudo aquilo que impede a nossa vida de tornar-se “gasosa”, evaporando-se no nada. Sejam guardiões de tudo o que permite sentir-nos parte uns dos outros, pertencer-nos mutuamente.

Isto mesmo viveu Nirmeen na JMJ de Cracóvia. Encontrou uma comunidade viva, alegre, que veio ao encontro dela, fê-la sentir-se parte dela e permitiu-lhe viver a alegria que comunica a maravilha de ser encontrada por Jesus. Nirmeen fugia de Jesus. Ela tinha suas distâncias, até que alguém a fez enxergar raízes, deu-lhe a sensação de pertencer a algo, e essa comunidade a encorajou a começar o caminho que ela nos contou.

Uma vez, um santo interrogou-se: “O progresso da sociedade servirá apenas para chegar a possuir o último modelo de carro ou adquirir a última tecnologia do mercado? Nisto se resume toda a grandeza do homem? Não há mais nada que isto para viver?” (Santo Alberto Furtado, Meditación de Semana Santa para jovens, 1946). E eu pergunto aos jovens: Vocês querem esta grandeza? Ou não... [Não!] Estão na dúvida. Não ouço bem...O que foi? [Não!] A grandeza não é somente ter o carro de último modelo, adquirir a última técnica do mercado. Vocês foram criados para algo mais. Maria compreendeu-o e disse: “Faça-se em Mim”. Erika e Rogelio compreenderam-no e disseram: “Faça-se em nós”. Alfredo compreendeu-o e disse: “Faça-se em mim”. Nirmeen compreendeu-o e disse: “Faça-se em mim”. Amigos, pergunto: Vocês estão dispostos a dizer “sim”? [Sim!] Agora aprenderam a responder, já gosto mais! O Evangelho ensina-nos que o mundo não será melhor por haver menos pessoas doentes, debilitadas, frágeis ou idosas de que ocupar-se, nem por haver menos pecadores, mas será melhor quando forem mais as pessoas que, como estes amigos, estiverem dispostas e tiverem a coragem de dar à luz o amanhã e acreditar na força transformadora do amor de Deus. Vocês querem ser influencer no estilo de Maria, que teve a coragem de dizer “faça-se em Mim”? [Sim!] Só o amor nos torna mais humanos, mais plenificados, o resto são placebos bons, mas vazios.

Dentro de momentos, na Adoração Eucarística, encontraremos com Jesus vivo. Certamente vocês terão muitas coisas para Lhe dizer, para Lhe contar sobre várias situações da vida de vocês, das suas famílias e dos seus países.

Estando diante de Jesus, face a face, não tenham medo de Lhe abrir o coração pedindo que renove o fogo do amor d’Ele, que leve vocês a abraçar a vida com toda a sua fragilidade e pequenez, mas também com toda a sua grandeza e beleza. Que ajude a descobrir a beleza de estar vivos e acordados. Vivos e acordados.

Não tenham medo de dizer a Jesus que vocês também querem fazer parte da sua história de amor no mundo, que vocês estão para “mais”!

Amigos, peço também que, neste face a face com Jesus, rezem por mim para que também eu não tenha medo de abraçar a vida, guarde as raízes e diga com Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”.


Santa Missa da Celebração da Jornada Mundial da Juventude

Homilia do Santo Padre

Campo São João Paulo II – Metro Park (Panamá)

Domingo, 27 de janeiro de 2019

"Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos n’Ele. Começou, então, a dizer-lhes: 'Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir’" (Lc 4, 20-21).



O Evangelho apresenta-nos, assim, o início da missão pública de Jesus. Apresenta-O na sinagoga que O viu crescer, circundado por conhecidos e vizinhos e talvez até por algum dos seus "catequistas" de infância que Lhe ensinou a lei. Momento importante na vida do Mestre quando Ele – a criança que Se formara e crescera dentro daquela comunidade – Se levantou e tomou a palavra para anunciar e realizar o sonho de Deus. Uma palavra até então proclamada apenas como promessa do futuro, mas que, na boca de Jesus, só podia ser pronunciada no presente, tornando-se realidade: "Cumpriu-se hoje".

Jesus revela o agora de Deus, que vem ao nosso encontro para nos chamar

Jesus revela o agora de Deus, que vem ao nosso encontro para nos chamar, também a nós, a tomar parte no seu agora, no qual "anunciar a Boa-Nova aos pobres", "proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos a recuperação da vista", "mandar em liberdade os oprimidos" e "proclamar um ano favorável da parte do Senhor" (cf. Lc 4, 18-19). É o agora de Deus que, com Jesus, se faz presente, se faz rosto, carne, amor de misericórdia que não espera situações ideais ou perfeitas para a sua manifestação, nem aceita desculpas para a sua não-realização. Ele é o tempo de Deus que torna justos e oportunos todos os espaços e situações. Em Jesus, começa e faz-se vida o futuro prometido.

Quando? Agora. Mas nem todos aqueles que lá O ouviram, se sentiram convidados ou convocados. Nem todos os habitantes de Nazaré estavam prontos para acreditar em alguém que conheciam e tinham visto crescer e que os convidava a realizar um sonho há muito aguardado. Antes, pelo contrário! Diziam: "Mas não é o filho de José?" (cf. Lc 4, 22).

A nós, também pode suceder o mesmo. Nem sempre acreditamos que Deus possa ser tão concreto no dia-a-dia, tão próximo e real, e menos ainda que Se faça assim presente agindo através de alguém conhecido, como um vizinho, um amigo, um parente. Nem sempre acreditamos que o Senhor nos possa convidar a trabalhar e pôr as mãos na massa com Ele no seu Reino de forma tão simples mas incisiva. Custa aceitar que "o amor divino se tornou concreto e quase experimentável na história com todas as suas vicissitudes ásperas e gloriosas" (Bento XVI, Catequese na Audiência Geral de 28/IX/2005).

E não é raro comportarmo-nos como os habitantes de Nazaré, quando preferimos um Deus à distância: magnífico, bom, generoso, bem desenhado, mas distante e sobretudo que não incomode, um Deus "domesticado". Porque um Deus próximo no dia-a-dia, um Deus amigo e irmão pede-nos para aprendermos proximidade, presença diária e, sobretudo, fraternidade. Ele não quis manifestar-Se de modo angélico ou espetacular, mas quis oferecer-Se-nos com um rosto fraterno e amigo, concreto, familiar. Deus é real, porque o amor é real; Deus é concreto, porque o amor é concreto. E é precisamente esta "dimensão concreta do amor aquilo que constitui um dos elementos essenciais da vida dos cristãos" (Bento XVI, Homilia, 1/III/2006).

Querer domesticar a Palavra de Deus é uma tentação de todos os dias.


Também nós podemos correr os mesmos riscos que os moradores de Nazaré, quando, nas nossas comunidades, o Evangelho quer se fazer vida concreta e começamos a dizer: "Mas, estes jovens, não são filhos de Maria, de José, não são irmãos de..., parentes de…? Não são aquelas crianças que nós ajudamos a crescer? É melhor que se calem! Como podemos acreditar neles? E este ali… não é o que quebrava sempre os vidros com a bola?" E, assim, uma pessoa que nasceu para ser profecia e anúncio do Reino de Deus acaba domesticada e empobrecida. Querer domesticar a Palavra de Deus é uma tentação de todos os dias.

E também a vós, queridos jovens, pode acontecer o mesmo, sempre que vocês pensam que a sua missão, a sua vocação e até a sua vida é uma promessa mas que vale só para o futuro, não tem nada a ver com o presente. Como se ser jovem fosse sinônimo de "sala de espera" para quem aguarda a sua vez. E, enquanto não chega, inventam para vocês ou vocês mesmos inventam um futuro higienicamente bem embalado e sem consequências, bem construído e garantido com tudo "bem assegurado". Não queremos oferecer a vocês um futuro de laboratório! É a "ficção" da alegria, não a alegria do dia de hoje, do concreto, do amor. E assim, com esta "ficção" da alegria, "tranquilizamos" vocês, os adormentamos para não fazerem barulho, para não atrapalharem demasiado, não fazerem perguntas interrogativos a si mesmos e a nós, para não se questionarem nem nos questionarem; e "enquanto isso" os seus sonhos perdem altitude, tornam-se baixos, começam a adormentar-se e ficam "ilusões" pequenas e tristes (cf. Francisco, Homilia do Domingo de Ramos, 25/III/2018), só porque consideramos ou consideram que o seu agora ainda não chegou; que são jovens demais para se envolverem no sonho e construção do amanhã. E, assim, continuamos a adiar o seu momento... E sabem de uma coisa? Muitos jovens gostam disto. Por favor, ajudemo-los para que não gostem, que reajam, que queiram viver o "agora" de Deus.

Um dos frutos do Sínodo recente foi a riqueza de podermos nos encontrar e, sobretudo, ouvir. A riqueza da escuta entre gerações, a riqueza do intercâmbio e o valor de reconhecer que precisamos uns dos outros, que devemos esforçar-nos por promover canais e espaços onde nos comprometamos a sonhar e construir o amanhã, já hoje. Não isoladamente, mas unidos, criando um espaço em comum: um espaço que não nos é oferecido de prenda, nem o ganhamos na loteria, mas um espaço pelo qual vocês jovens também devem. Vocês, jovens, devem lutar pelo seu espaço hoje, porque a vida é hoje. Ninguém pode prometer o dia de amanhã: a sua vida é hoje, o seu desafio é hoje, o seu espaço é hoje. Como você está respondendo a isto?

Vocês, queridos jovens, não são o futuro. Gostamos de dizer: "Vocês são o futuro…." Mas não é verdade! Vocês são o presente! Não são o futuro de Deus; vocês, jovens, são o agora de Deus. Ele os convoca, chama nas suas comunidades, chama-os nas suas cidades, para irem à procura dos avós, dos adultos; para se levantarem de pé e, com eles, tomar a palavra e realizar o sonho que o Senhor sonhou para vocês.

Não amanhã; agora! Pois, onde agora está o teu tesouro, aí está também o teu coração (cf. Mt 6, 21); e, aquilo que os apaixona, conquistará não apenas a sua imaginação, mas envolverá tudo. Será aquilo que os faz levantar de manhã e incita nos momentos de cansaço, aquilo que abrirá o seu coração enchendo-o de maravilha, de alegria e de gratidão. Sintam que têm uma missão e apaixonem-se por ela, tudo dependerá disto (cf. Pedro Arrupe S.J., Nada és más práctico). Poderemos ter tudo; mas, queridos jovens, se falta a paixão do amor, faltará tudo! A paixão do amor hoje! Deixemos que o Senhor nos faça enamorar e nos leve para o amanhã!

Poderemos ter tudo; mas, queridos jovens, se falta a paixão do amor, faltará tudo!

Para Jesus, não há um "enquanto isso", mas um amor de misericórdia que quer penetrar no coração e conquistá-lo. Ele quer ser o nosso tesouro, porque Jesus não é um "enquanto isso" na vida nem uma moda passageira: é amor de doação que convida a doar-se.

É amor concreto, de hoje, próximo, real; é alegria festiva que nasce da opção de participar na pesca milagrosa da esperança e da caridade, da solidariedade e da fraternidade diante de tantos olhares paralisados e paralisadores por causa dos medos e da exclusão, da especulação e da manipulação.

Irmãos, o Senhor e a sua missão não são um "enquanto isso" na nossa vida, algo passageiro, não são apenas um Jornada Mundial da Juventude: são a nossa vida de hoje e para todo o caminho!

Ao longo de todos estes dias, como um fundo musical, acompanhou-nos de modo especial o "faça-se" de Maria. Ela não Se limitou a acreditar em Deus e nas suas promessas como algo possível, mas acreditou em Deus e teve a coragem de dizer "sim" para participar neste agora do Senhor. Que vocês possam, de igual modo, sentir que têm uma missão, deixar-se apaixonar… e o Senhor decidirá tudo.

E como sucedeu na sinagoga de Nazaré, o Senhor, no meio de nós, dos seus amigos e conhecidos, de novo Se ergue de pé, toma o livro e diz-nos: "Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir" (Lc 4, 21).

Queridos jovens, vocês querem viver em concreto o seu amor? O seu "sim" continue a ser a porta de entrada para que o Espírito Santo conceda um novo Pentecostes à Igreja e ao mundo. Assim seja.


Saudação Final

No final desta celebração, dou graças a Deus por nos ter concedido a possibilidade de compartilharmos esses dias, vivendo mais uma Jornada Mundial da Juventude.

De modo particular, desejo agradecer a presença nesta celebração do Senhor Presidente do Panamá, Juan Carlos Varela Rodríguez, dos Presidentes de outras nações e das demais Autoridades políticas e civis.

Agradeço ao Arcebispo de Panamá, D. José Domingo Ulloa Mendieta, a sua disponibilidade e mediação para hospedar na sua diocese esta Jornada, bem como aos outros Bispos deste país e países vizinhos, por tudo o que fizeram nas suas comunidades para dar abrigo e ajuda a tantos jovens.

Obrigado a todas as pessoas que nos apoiaram com a sua oração e colaboraram com a sua dedicação e trabalho para tornar realidade o sonho da Jornada Mundial da Juventude neste país.

E a vocês, queridos jovens, um grande "obrigado"! A sua fé e alegria fizeram vibrar o Panamá, a América e o mundo inteiro. Como muitas vezes ouvimos, durante estes dias, no hino desta Jornada: "Somos peregrinos e viemos hoje aqui de tantos continentes e cidades". Estamos a caminho: continuem a caminhar, continuem a viver a fé e a partilhá-la. Não se esqueçam que não são o amanhã, não são o "enquanto isso", mas o agora de Deus.

Já foi anunciado o local da próxima Jornada Mundial da Juventude. Peço que não deixem esfriar o que viveram nestes dias. Voltem às suas paróquias e comunidades, às suas famílias e aos seus amigos, transmitam aquilo que viveram, para que outros possam vibrar com a força e a esperança concreta que vocês têm. E com Maria, continuem a dizer "sim" ao sonho que Deus semeou em vocês.

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim!