Josemaria Escrivá, sacerdote de Deus, trabalhador exemplar

Publicamos um seu discurso do professor Alfonso Nieto, pronunciado na Universidade de Navarra, a 26-VI-1985. Muitos viram como Alfonso procurou seguir o exemplo de um santo que foi seu pai e seu mestre.

Bibliografia e ensaios
Opus Dei - Josemaria Escrivá, sacerdote de Deus, trabalhador exemplar

Hoje é o décimo aniversário da morte de Mons. Escrivá, Fundador e Primeiro e “Grão Chanceler” da Universidade de Navarra: decorreram dez anos desde aquela dolorosa separação e a sua presença sente-se cada vez mais forte no nosso dia a dia universitário.

Os professores que me precederam neste Ato Acadêmico souberam apresentar, com finura intelectual e sensibilidade de espírito, aspectos da vida e ensinamentos de Mons. Escrivá. Ao refletir sobre qual o fio condutor desta intervenção, duas palavras ecoaram fortemente na minha cabeça: trabalhador e trabalho. Queremos recordar um sacerdote de Deus, trabalhador exemplar, pregador infatigável da santificação do trabalho diário. Por este e muitos outros títulos o seu nome figura já no livro de ouro da história[1].

Tentar resumir os seus ensinamentos sobre o trabalho como valor humano e sobrenatural e resumir a sua vida de trabalhador, pode parecer – e realmente é – uma tarefa impossível de levar a cabo.

Nunca quis falar senão de Deus[2] pelo que só com o olhar de eternidade é possível encontrar o significado pleno dos seus escritos. Trabalhou intensamente e viveu as realidades mais humanas do trabalho, fosse intelectual ou manual, abraçando no seu ensinamento todas as profissões e ofícios realizados honradamente. Além disso, são tão abundantes os textos sobre o trabalho que nos legou que qualquer tentativa de seleção é semelhante a recolher fragmentos de um caudal sem limites.

Por que o trabalho?

Por que o trabalho humano é o centro da sua mensagem espiritual?[3] Só penetrando na intimidade dos desígnios divinos será possível encontrar a resposta completa a esta pergunta, sem nos limitarmos a rever a história da humanidade com um critério exclusivamente terreno que poderia qualificar como casual o que na verdade é a Providência. Não foi por acaso que naquele 2 de outubro de 1928 começou a difusão da mensagem renovadora do trabalho. Podíamos perguntar-nos: Por que Deus, Senhor do tempo e da eternidade “esperou” até àquele dia?

Para nós homens talvez seja necessário partir de uma realidade simples: a memória do homem é curta e a passagem do tempo fá-lo esquecer o verdadeiro fim da realidade criada. Mas, se a memória humana é frágil, Deus tem-nos sempre no presente e quando caímos em esquecimentos durante séculos, envia mensageiros que anunciam de novo a realidade esquecida. São os homens de Deus que nos relembram e redescobrem as maravilhas escondidas da Criação.

Durante muitos séculos o gênero humano tinha esquecido que o meio mais comum para se iniciar a relação entre a criatura e o seu Criador é o trabalho corrente: os ofícios e tarefas profissionais que mulheres e homens realizam no dia a dia. Por contraste, esses mesmos séculos viram crescer a importância do trabalho na ordem econômica e social até constituir um dos elementos essenciais na configuração do mundo. Como fator de produção chegou a ser um dos elementos essenciais nas relações humanas e, em algumas épocas e países, o trabalho deslocou a valorização da pessoa humana para o trabalhador.

O mandato divino fixado no momento da Criação – o homem foi criado para trabalhar[4] – parecia ser aplicável apenas a um tipo de pessoas enquanto a outras, pelo seu teor de vida, o texto do Gênesis não se lhes aplicava. O trabalho foi – e infelizmente ainda o é, em alguns casos – um estigma de classe, dividindo o gênero humano, projetando o seu efeito apenas na horizontal para satisfazer novas necessidades de produção de bens ou de prestação de serviços.

A transcendência do trabalho – que poderia traçar-se como uma linha vertical, unindo o céu e a terra – permanecia ignorada, esquecendo as suas raízes profundas na cristandade primitiva. Em face desta situação, pode compreender-se que, nos começos, a mensagem do Fundador do Opus Dei fosse uma novidade para alguns, objeto de contradição para outros; mas também um caminho cheio de luz para os que se decidissem a segui-lo de perto. Há nove anos ouvíamos nesta Aula Magna aquele que, por desígnio da Providência, viveu muitos anos junto do Fundador do Opus Dei. Dizia-nos então o nosso Grão Chanceler, D. Álvaro del Portillo: “A sua afirmação fundamental de que toda a ocupação honesta pode ser santificante e santificadora soou como uma novidade, especialmente nos começos. Opunha-se irremediavelmente a essa doutrina a sua consideração, habitual durante séculos, como coisa vil e inclusive como um estorvo para a santificação dos homens”[5].

O que hoje parece lógico, há mais de meio século parecia uma loucura[6]. Não foi tarefa fácil dar valor ao trabalho, desvalorizado na sua dimensão humana e sobrenatural. Mons. Escrivá revalorizou o trabalho outorgando-lhe um valor infinito[7]. Tão profundo era o seu amor ao trabalho que o levou a dizer: “se algum de vós não amasse o trabalho que lhe corresponde, se não se sentisse autenticamente comprometido em santificar uma das nobres ocupações terrenas, se carecesse de uma vocação profissional, nunca chegaria a penetrar na essência sobrenatural da doutrina que expõe este sacerdote, porque lhe faltaria, precisamente, uma condição indispensável: a de ser um trabalhador”[8].

Tão desumano seria pensar que o homem é só trabalho, como seria negar a obrigação universal de ser trabalhador. Ofícios e profissões acompanham inseparavelmente o caminhar terreno das pessoas[9], são o elemento comum para nos relacionarmos com os nossos semelhantes e com quem nos criou à Sua semelhança, com Deus. Se todos os homens devem ser trabalhadores, se os afazeres profissionais são o motor das relações sociais, se não existe um bem mais universal que o trabalho, não será lógico que o trabalho seja o cadinho habitual onde se funde a vida natural e a sobrenatural? Esta lógica divina e humana foi proclamada por Mons. Escrivá relembrando o chamamento universal à santidade[10].

Non recuso laborem!

Falar de trabalhadores e de trabalho implica falar de liberdade pois o homem livre, com autonomia no seu trabalho, merece o nobre título de trabalhador. Quem separa trabalho e liberdade abre as portas à escravidão. A liberdade é indispensável para conseguir que o trabalho se multiplique em novas formas de satisfazer o necessário, tornando a divisão do trabalho algo mais que um modo de especialização dos afazeres humanos. Graças à liberdade, o trabalhador promove novos trabalhos e participa na contínua atividade criadora. A divisão do trabalho não significa a divisão do conceito de trabalhador. O natural no homem é trabalhar, esforçar-se por alcançar um resultado, mas o resultado material não é a única medida do trabalhador, mas um meio para Deus o avaliar.

Dividir em partes a essência do homem que trabalha equivaleria a alterar a página da Criação, onde todas as pessoas estão inscritas com o mesmo título: filhos de Deus. A igualdade radical do trabalhador diante do seu Criador Supremo, projeta-se igualmente na consideração do trabalho.

Como sublinhava Mons. Escrivá, “é hora de que todos nós, cristãos, anunciemos bem alto que o trabalho é um dom de Deus, e que não faz nenhum sentido dividir os homens em diferentes categorias, conforme os tipos de trabalho, considerando umas ocupações mais nobres do que as outras”[11]. Universal é a igualdade do trabalho porque “podem ser divinos todos os caminhos da terra, todos os estados, todas as profissões, todas as tarefas honestas”[12]. A partir daquele 2 de outubro de 1928 o que para muitos era impensável tornou-se acessível, ainda que não seja cómodo ou fácil. Foi como se a imagem do trabalho – humana e por sua vez divina – se focasse com nitidez, fixando uma nova dimensão que, sete lustros depois, seria acolhida com gozo e esperança pelo Concílio Vaticano II[13].

A visão positiva e encorajadora que leva a definir o trabalho como um dom de Deus não exclui o esforço e a fadiga, essa fadiga que – como fazia notar recentemente João Paulo II – é criativa porquanto o trabalho também forma o homem e, de certo modo, cria-o[14]. Na vida de Mons. Escrivá é notória a eficácia criadora do seu trabalho. Trabalhou muito e bem[15] encorajando a pôr como medida do trabalho[16], trabalhar sem descanso[17], pois o ato de descansar deve significar realizar tarefas que exigem um esforço diferente[18]. Por ser muito exigente consigo mesmo, pôde recusar, com equidade, o trabalho mal feito[19], a inconstância e o trabalho mal-acabado por desleixo ou preguiça[20]. Incitando a trabalhar como o melhor e, se possível, melhor que o melhor[21]. Fixou para o tempo um valor superior ao do ouro[22], por isso o homem não deve perder nem desprezar nem um segundo[23]. Tempo e trabalho têm valor de eternidade, e tão elevada dignidade funda-se na íntima inserção do trabalho na Vontade de Deus que o assume, torna Seu, sempre que o trabalhador o oferece como humilde correspondência à sua participação na tarefa da criação.

O trabalho torna-se mais humano sempre que se dirige para o divino, e adquire dimensão sobrenatural, mediante a graça de Deus, ao ser realizado com perfeição humana. Partindo desta perspectiva, todos os trabalhos levam a marca de um carácter de originalidade. As mãos do trabalhador podem repetir mil vezes o mesmo movimento e cada movimento pode adquirir um valor humano único e sobrenatural. A regra de ouro para alcançar essa dupla característica de autonomia e singularidade é que o trabalho seja uma oportunidade para relacionar-se com Deus, onde está presente o amor e não há lugar para a rotina. Surge uma nova forma de divisão do trabalho, singularizada em tantos atos, quantos os capazes de elevar a mente e o coração do homem no desempenho da sua tarefa, convertendo cada um deles em algo novo, único, original, diferente, como diferentes são as gotas de água que tecem a chuva.

Refletir sobre a mensagem espiritual do Primeiro Grão Chanceler desta Universidade sobre o trabalho, é uma ocasião para apaixonar-se pela profissão ou ofício e perceber a necessidade de trabalhar mais e melhor. Na intimidade, gostava de repetir a frase pronunciada há mil e seiscentos anos num povoado francês – Candes – ali onde confluem as águas do Vienne e do Loire: non recuso laborem! Desculpai-me se recordo uma história, sem dúvida, conhecida de muitos de vós.

No século IV da nossa era viveu na Gália um militar da guarda imperial que, um belo dia, dividiu a sua capa para entregar metade a um pobre. Assim a iconografia de S. Martinho, Bispo de Tours no-lo apresenta. Conta a história que no final da sua vida os discípulos quiseram que desempenhasse novas funções ao que respondeu com estas palavras “Senhor! Se ainda sou necessário ao teu povo, não recuso o trabalho”[24]. Aquele non recuso laborem ganha universalidade na mensagem de Mons. Escrivá: nunca recusou um trabalho, serviu com fidelidade, sendo instrumento de Deus, para que a nenhum trabalho, a nenhum trabalhador fossem recusados os caminhos da santidade.

Fadiga nobre e criadora

Se a memória do homem é frágil para recordar a origem e a finalidade do trabalho, também a vontade é débil quando se trata de trabalhar. Certamente a imaginação humana nunca plasmou alegria e otimismo sobre o conceito de trabalho, começando pelo significado etimológico do termo, que lembra travão ou obstáculo (trabs) ou, numa consideração mais sinistra, instrumento de tortura composto por três paus (tripaliare).

A escolha entre obstáculo ou tortura, não deixa muita margem para a visão positiva e esperançosa do trabalho humano. Além de que a doutrina econômica clássica sobre o trabalho não abre as portas ao otimismo, pois contrapõe o trabalho a uma “coisa” – o capital – e fixa-lhe como meta a produção de riqueza. Com tais pressupostos, facilmente se compreende que o trabalho seja visto por alguns como pena, castigo, ou preço a pagar por viver na terra, e o homem procure tarefas em que o esforço seja mínimo, considerando um êxito encontrar substitutos que atenuem o peso, parecido com a proposta que formulam certos estudantes nas vésperas do exame final: elaborar um “trabalho” em vez de se apresentar a exame. Por sorte, a sociedade do nosso tempo cada vez é mais sensível à valorização do trabalho talvez porque ele comece a escassear. Contudo, ainda não se apagou a visão pessimista que enche de angústia e tristeza o trabalho humano.

O ensinamento sobre o trabalho que Mons. Escrivá legou à humanidade está empapado de alegria serena e visão encorajadora, sem excluir a dor que o trabalhador possa suportar. “A dor tem um lugar nos planos de Deus. Esta é a realidade, ainda que nos custe entendê-la”[25]. O trabalho realizado com liberdade, cansa, mas não aliena, consome o homem, mas não anula a sua personalidade. Ao longo da história do trabalho não faltaram os que o manipularam revestindo-o com um sentido destrutivo. Seria ignorar a realidade desconhecer que com o trabalho se cometeram e cometem injustiças para com o trabalhador, mas a maldade está no homem, não no trabalho. À medida que se analisarem estas situações, encontraremos comportamentos egoístas, geradores de tristeza[26]. Para o nosso Grão Chanceler, o trabalho é uma realidade maravilhosa[27], fadiga nobre e criadora dos homens[28]. Com uma imagem expressiva, plena de um fino sentido de humor, definiu o trabalho no Opus Dei como uma doença crônica, contagiosa, incurável e progressiva[29]. Face a essa “doença”, não podemos fazer cara de vítima[30] ou fugir[31].

A sua visão do trabalho está cheia de sentido humano e sobrenatural, é realista e otimista, sem utopias ou sonhos loucos. Tem como ponto de partida a bondade natural das coisas criadas[32], de todos os acontecimentos humanos honestos[33]. A partir daí, abre ao trabalhador um imenso panorama com um singular poder de atração: qualquer ofício ou profissão tem a virtualidade de ser o encontro entre a criatura e o seu Criador. É um chamamento oculto que compete ao homem descobrir. O trabalho converte-se em aventura, onde o risco do esforço e do cansaço recebe como prêmio o encontro do rastro de Deus. É o algo[34] de que não se pode duvidar, oculto e ao mesmo tempo conhecido, recreação[35] para quem aposta pelo mundo, mas sem querer ser mundano. Quem fica à espera tem possibilidade de encontrar o que espera, mas o que procura com constância e está em constante descoberta, tem a certeza de descobrir o que procura. A aventura do trabalho não fica em esperar Deus, mas em correr ao seu encontro, em afadigar-se por realizar com a maior perfeição possível o dever de cada instante, quase sempre em silêncio.

É tão verdadeiro que o homem foi criado para trabalhar como não o foi para estar triste enquanto trabalha. Como não existe uma situação intermédia entre a alegria e a tristeza – pois a indiferença é um triste modo de viver – trabalho e alegria não são apenas compatíveis, como são inseparáveis e a aventura do trabalho é uma aventura alegre. O verdadeiro trabalho cansa e por sua vez alegra, mas a alegria precede sempre o cansaço, quando, até no mais pequeno pormenor, se tenta descobrir esse “algo divino” que se encerra nas coisas pequenas[36].

Um poeta francês disse “só amo o trabalho do trabalho”[37] dando a entender deste modo a sua predileção pelo trabalho consciente, reflexivo e tenaz, sem improviso ou espontaneidade. O esforço do trabalho tem a beleza do que é árduo e implica conquista para o homem que, ao compasso da fadiga, vai desenvolvendo a sua personalidade[38]. “Mediante o trabalho – diz João Paulo II – o homem não somente transforma a natureza, adaptando-a às suas próprias necessidades, mas também se realiza a si mesmo como homem e até, num certo sentido, "se torna mais homem"”[39].

Uma manifestação do amadurecimento da personalidade humana é a marca da solidariedade em tudo o que faz. No núcleo do trabalho está o seu caráter solidário que procura o bem temporal de toda a humanidade[40]. Se o trabalho se esgotasse no homem, surgiria o egoísmo que faz desaparecer o serviço solidário[41]; não seria um autêntico trabalho. Porque o trabalho é serviço aos outros, devem colocar-se todos os meios para que desapareça qualquer indício de falta de solidariedade.

São duas as situações extremas de falta de solidariedade no trabalho. Uma sofre-a quem quer trabalhar e não encontra trabalho, outra, quem, abusando da solidariedade alheia, tendo possibilidade de encontrar emprego, se nega a trabalhar. A quem não tem emprego privamo-lo de um direito da pessoa, o direito a trabalhar[42]. Com o folgado – é esse o seu nome – é preciso insistir para que não continue a atentar contra um dos princípios fundamentais da equidade: o trabalho[43].

Viver a solidariedade é dar trabalho, procurar que todos trabalhem, esforçar-se para que aumente o número e a qualidade dos trabalhos, ajudar os outros no seu trabalho e com o próprio trabalho. Um lema do Fundador desta Universidade sintetiza o espírito solidário no trabalho: fazer, fazer fazer, dar afazeres[44]. Poucos dos nossos contemporâneos contribuíram tanto para promover o trabalho e trabalhar mais. Talvez algum profissional ou perito em estatística – uma dessas pessoas que gosta de quantificar as relações humanas – possa tentar dar resposta a uma pergunta que, em uma ocasião, me colocaram: Com quantas horas de trabalho contribuiu e continua a contribuir para a humanidade o exemplo e a mensagem espiritual de Mons. Escrivá? Difícil será responder a essa pergunta, mas, em troca, é fácil comprovar que viveu a solidariedade em grau supremo porque fez da sua vida um serviço constante aos outros. Também este ponto da sua vida é reflexo das suas palavras: “Eu meço a solidariedade por obras de serviço”[45].

Com a felicidade de um poeta e a segurança de um professor

Conhecer a vida exemplar de um homem de Deus, exige prestar atenção aos detalhes e maneiras de atuar nos seus afazeres cotidianos. Como trabalhava Mons. Escrivá? As almas grandes vivem com felicidade o que pregam. Por isso quero trazer à colação um texto que escreveu há mais de meio século onde, com profundidade e beleza, esboça o modo de atuar profissionalmente de um cristão: “com sabedoria de artista, com felicidade de poeta, com segurança de mestre e com um pudor, mais persuasivo que a eloquência, procurando, ao procurar a perfeição cristã na sua profissão e no seu estado no mundo, o bem de todo a humanidade”[46]. Assim trabalhava o Fundador do Opus Dei.

Com o passar dos anos, as pessoas que com esforço fazem render a sua inteligência ao serviço do Espírito, veem-se inundadas pela sabedoria divina. Como prêmio recebem luz para divisar novas realidades – dons gratuitamente outorgados – que completam e elevam até aos mais altos cumes a espiritualidade que estão semeando pelo mundo. Mons. Escrivá fez um esforço especial para mostrar que a Missa constitui o centro e a raiz da vida espiritual do cristão[47]. Em sua caminhada constante como contemplativo no meio do mundo – a partir do trabalho e com o trabalho, “depois de tantos anos, aquele sacerdote fez uma descoberta maravilhosa: compreendeu que a Santa Missa é verdadeiro trabalho: operatio Dei, trabalho de Deus. E nesse dia, ao celebrá-la, experimentou dor, alegria e cansaço. Sentiu na sua carne o esgotamento de um labor divino”[48]. Com esta descoberta maravilhosa, o Fundador desta Universidade levou o trabalho ao mais íntimo e sublime do viver cristão, ali, onde o sacerdote eleva as suas mãos para Deus e Deus pede a colaboração da palavra do homem. De um modo inefável o trabalho entrelaça o sacrifício e o louvor à Divindade.

Sabedoria, segurança, pudor mais persuasivo que a eloquência, felicidade. Estas palavras ecoam numa história contada em forma de parábola, com prosa poética. O protagonista é um animal pequeno, desses que os homens qualificam como “de carga”: um burrinho, concretamente o burrinho que gasta a sua vida entre o ruído de baldes e o tirar da água, dando voltas à nora. Admirava esse pequeno animal de carga, sobretudo por uma coisa: trabalhava. Com a retidão da alma curtida em alegrias e sofrimentos quis que essa história tivesse um final feliz porque – dizia – a história do meu burrinho acaba bem: morre trabalhando[49]. Naquela manhã de 26 de Junho de 1975 – faz agora dez anos – Deus quis culminar o caminhar terreno de Mons. Escrivá e chamou-o a Si num lugar muito concreto: o quarto onde costumava trabalhar[50].

Chegou o momento de encerrar esta solene sessão acadêmica, celebrada no décimo aniversário do falecimento de Mons. Escrivá. Por muito que nos alongássemos, as nossas palavras seriam pobres para refletir a homenagem de gratidão que este Claustro deseja prestar a quem foi – é e será – o primeiro universitário da Universidade de Navarra. Estamos conscientes de que possuímos um inestimável legado de doutrina e espírito que responsabiliza com toda a força da generosidade fundacional. Uma maneira de fazer chegar ao céu ações de graças é incorporar no nosso trabalho diário o melhor patrimônio que sempre terá a Universidade de Navarra: o exemplo e os ensinamentos do seu Fundador.

Alfonso Nieto nasceu nas Astúrias, Espanha, em 1932. Era catedrático de Empresas de Informação na Universidade Complutense de Madrid. Diretor do Instituto de Jornalismo e da que foi posteriormente Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (1969-1974), centro do qual foi também reitor durante treze anos (1979-1991). Os seus estudos sobre a economia da comunicação valeram-lhe o reconhecimento da comunidade acadêmica internacional. Recebeu o prêmio de honra da Journal of Media Economics.

Contribuiu para tornar realidade um desejo de São Josemaria: a formação universitária dos profissionais da informação. Intuiu, adiantando-se de novo ao seu tempo, que os profissionais que têm a cargo a comunicação nas instituições da igreja necessitam de uma preparação universitária adequada. Concretamente promoveu o projeto da Faculdade de Comunicação Institucional da

Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma.

Ver vídeo "in memoriam" preparado pela Universidade de Navarra

Discurso de Alfonso Nieto, pronunciado na Universidade de Navarra, em 26/06/1985.



[1] Frase de um texto de Josemaria Escrivá. A sua humildade lhe fazia incluir-se entre “não conseguirão gravar seus nomes no livro de ouro da história”. É Cristo que passa, 174.

[2] Mons. Álvaro del Portillo diz na apresentação de É Cristo que passa: “Ao iniciar estas páginas de apresentação do primeiro volume de Homilias de Monsenhor Josemaria Escrivá, vêm-me à memória umas palavras que tive oportunidade de lhe ouvir em múltiplas ocasiões, perante pessoas de muitos países e de todas as condições sociais: Eu sou um sacerdote que só fala de Deus

[3] "Na mensagem espiritual de Mons. Escrivá, o trabalho humano, aquela nobre atividade que o materialismo tenta transformar em barro que cega os homens e os impede de olhar para o céu, transformou-se em colírio, para olhar para Deus, para conversar e amar nosso Senhor, em todas as circunstâncias da vida, em todas as coisas". Mons. Alvaro DEL PORTILLO, En memoria de Mons. Josemaría Escrivá de Balaguer, 2. a edición (Pamplona 1977), pág. 50.

[4] “Desde o começo da sua criação, o homem teve que trabalhar. Não sou eu que o invento: basta abrir a Sagrada Bíblia nas primeiras páginas para ler que - antes de que o pecado e, como conseqüência dessa ofensa, a morte e as penalidades e misérias entrassem na humanidade - Deus formou Adão com o barro da terra e criou para ele e para a sua descendência este mundo tão belo, ut operaretur et custodiret illum, para que o trabalhasse e guardasse”. Amigos de Deus, 57.

[5] En Memoria..., cit., pág. 48

[6] Dom Álvaro del Portillo, na cerimônia acadêmica realizada na Universidade de Navarra em 12 de junho de 1976, para prestar homenagem a seu fundador e primeiro Grande Chanceler, citou as seguintes palavras de Mons. Escrivá: "Tinha eu vinte e seis anos, a graça de Deus e bom humor: e mais nada. Mas assim como nós os homens escrevemos com a caneta, o Senhor escreve com a perna da mesa, para que se veja que é Ele quem escreve: isso é o incrível, isso é o maravilhoso. Era preciso criar toda a doutrina teológica e ascética, e toda a doutrina jurídica. Encontrei-me perante uma solução de continuidade de séculos: não havia nada. A Obra inteira, aos olhos humanos, era um enorme disparate. Por isso alguns diziam que eu estava louco e que era um herege, e muitas coisas mais”. Cfr. En Memoria... cit., pág. 34.

[7] “O trabalho não é apenas um dos mais altos valores humanos e meio com que os homens devem contribuir para o progresso da sociedade; é também caminho de santificação”. Entrevistas com Mons. Josemaria Escrivá, 24. “O Senhor dá ao trabalho da inteligência e das mãos do homem, ao trabalho dos seus filhos, um valor imenso”. Texto de 11/03/1940, citado por José Luis ILLANES, La Santificación del trabajo, 8ª edición (Madri 1981), pág. 113.

[8] Amigos de Deus, 58.

[9] “O trabalho acompanha inevitavelmente a vida do homem sobre a terra”. É Cristo que passa, 47.

[10] Entre os numerosos textos de Mons. Escrivá sobre a chamada universal à santidade, vid. É Cristo que passa, 3, 33, 58, 76, 134. Amigos de Deus, 2, 6, 294, 312. Entrevistas..., 26, 34, 47, 55, 57, 61.

[11] É Cristo que passa, 47. “Diante de Deus, tem tanta categoria a que é catedrática de uma Universidade quanto a que trabalha como comerciária, ou como secretária, ou como operária, ou como camponesa. Todas as almas são iguais; mas, às vezes, são mais formosas as almas das pessoas mais simples; e sempre são mais agradáveis ao Senhor as que tratam com mais intimidade a Deus Pai, a Deus Filho e a Deus Espírito Santo” Entrevistas, 109.

[12] Entrevistas, 26.

[13] “Os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas famílias, de tal modo exercem a própria atividade que prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história” Concilio Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, n. 34. Mons. Escrivá dizia a Tad Szulc, do “New York Times” em 7/10/1966: “Quando se leem os decretos do Concílio Vaticano II, percebe-se claramente que uma das partes importantes dessa renovação foi precisamente a revalorização do trabalho ordinário e da dignidade da vocação do cristão que vive e trabalha no mundo” cfr. Entrevistas... 55. Vid. também, Andrés VÁZQUEZ DE PRADA, El Fundador del Opus Dei (Madri 1983), págs. 335-339.

[14] João Paulo II, Carta Apostólica aos jovens, 31/03/1985, n. 12.

[15] “Temos que trabalhar muito na terra, e temos que trabalhar bem, porque essas ocupações habituais são a matéria que devemos santificar” Amigos de Deus, 202.

[16] Cfr. Camino, n. 748.

[17] Id. n. 373.

[18] Id. n. 357.

[19] “Deus não aceita trabalhos ‘marretados’” Amigos de Deus, 55. “Como você vai oferecer a Deus um trabalho mal feito?” Cfr. A. VÁZQUEZ DE PRADA, op. cit., 266.

[20] “Já que temos de comportar-nos sempre como enviados de Deus, devemos ter muito presente que não servimos o Senhor com lealdade quando abandonamos a nossa tarefa; quando não partilhamos com os outros do seu empenho e abnegação no cumprimento dos compromissos profissionais; quando nos podem apontar como ociosos, impontuais, frívolos, desordenados, preguiçosos, inúteis... Porque quem descura essas obrigações, aparentemente menos importantes, é difícil que vença nas outras da vida interior, que certamente são mais custosas” Amigos de Deus, 62.

[21] Amigos de Deus, 63.

[22] Caminho, 355. “Quem é laborioso aproveita o tempo, que não é apenas ouro; é glória de Deus! Faz o que deve e está no que faz, não por rotina nem para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e ponderada. Por isso é diligente” Amigos de Deus, 81. “Que pena viver, praticando como ocupação a de matar o tempo, que é um tesouro de Deus!” Amigos de Deus, 46.

[23] “Não nos deve sobrar tempo; nem um segundo. E não exagero. Trabalho há. O mundo é grande e são milhões as almas que ainda não escutaram claramente a doutrina de Cristo” Amigos de Deus, 42.

[24] Tunc ille motus his fletibus, ut totus semper in Domino misericordiae uisceribus adfluebat, lacrimasse perhibetur; conuersusque ad Dominun hac tantum flentibus uoce respondit: “Domine, si adhuc populo tuo sum necessarius, non recuso laborem: fiat uoluntas tua” Vita S. Martini. Sulpicii Severi: Epistula tertia Bassulae parenti venerabili Edição dirigida porJ. Fontaine. Paris, “Sources chrétiennes”, n. 133, 1967, págs. 338-340.

[25] É Cristo que passa, 168.

[26] “A tristeza é a escória do egoísmo. Se queremos viver para o Senhor, não nos faltará a alegria, mesmo que descubramos os nossos erros e as nossas misérias” Amigos de Deus, 92.

[27] “Devemos convencer-nos, portanto, de que o trabalho é uma maravilhosa realidade que se nos impõe como uma lei inexorável, e de que todos, de uma maneira ou de outra, lhe estão submetidos, ainda que alguns pretendam fugir-lhe” Amigos de Deus, 57.

[28] “Vemos no trabalho — na nobre fadiga criadora dos homens — não só um dos mais altos valores humanos, meio imprescindível para o progresso da sociedade e para o ordenamento cada vez mais justo das relações entre os homens, mas também um sinal do amor de Deus para com as suas criaturas e do amor dos homens entre si e para com Deus: um meio de perfeição, um caminho de santificação” Entrevistas..., 10.

[29] Cfr. A. VÁQUEZ DE PRADA, op. cit., pág. 321.

[30] “Não posso evitar certo desassossego quando alguém, ao falar das suas ocupações, faz cara de vítima, diz que o seu trabalho o absorve não sei quantas horas por dia e, na realidade, não desenvolve nem a metade do labor de muitos dos seus colegas de profissão que, no fim das contas, talvez só estejam dominados por critérios egoístas ou, pelo menos, meramente humanos” Amigos de Deus, 60.

[31] “Não duvidem, meus filhos; qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus” Entrevistas..., 114.

[32] “Todas as coisas da terra são boas, e não apenas de uma forma natural, mas pela ordem sobrenatural à qual foram destinadas” Texto de 19/03/1954, cit. por J. L. ILLANES, La Santificación del trabajo, cit., pág. 88. “Tenho-o ensinado constantemente com palavras da Escritura Santa: o mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus, porque é criatura d’Ele, porque Javé olhou para ele e viu que era bom. Nós, os homens, é que o fazemos ruim e feio, com nossos pecados e nossas infidelidades” Entrevistas..., 114.

[33] “Não é admissível pensar que, para sermos cristãos, seja preciso voltarmos as costas ao mundo, sermos uns derrotistas da natureza humana. Tudo, até o mais ínfimo dos acontecimentos honestos, encerra um sentido humano e divino” É Cristo que passa, 125.

[34] “Não esqueçamos nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir” Entrevistas..., 114.

[35] Os dois significados da palavra recreação são significativos: 1. ação e efeito de recrear ou recrear-se; 2. Diversão para alívio do trabalho. Cf. Diccionario de la Lengua Española, 20. a edición, Tomo II (Madrid 1984).

[36] “Realizem as coisas com perfeição, ponham amor nas pequenas atividades da jornada; Descubram — insisto — esse algo divino que nos detalhes se encerra: toda esta doutrina encontra lugar especial no espaço vital em que se enquadra o amor humano” Entrevistas..., 121.

[37] Paul VALERY, El cementerio marino. Estudio preliminar (Madrid 1981), págs. 16 y 17.

[38] “O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação; é meio de desenvolvimento da personalidade; é vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para o sustento da família; meio de contribuir para o progresso da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a humanidade” É Cristo que passa, 47.

[39] João Paulo II, Encíclica Laborem exercens, 9.

[40] Cfr. Josemaría ESCRIVÁ DE BALAGUER. Texto de 14/02/1950, citado por J. L. ILLANES, op. cit., pág. 99, nota 55.

[41] “Só não é serviço o trabalho de quem condiciona tudo ao seu próprio bem-estar” Entrevistas..., 109.

[42] “O trabalho é um direito humano e por isso deve ser garantido, dedicando-lhe os mais assíduos cuidados e colocando no centro da política econômica a preocupação de criar possibilidades adequadas de trabalho para todos e especialmente para os jovens, que hoje tantas vezes sofrem o flagelo do desemprego” João Paulo II, Carta Apostólica aos Jovens, 31/03/1985, 12.

[43] “Não acredito na justiça dos folgazões, porque com o seu dolce far niente - como dizem na minha querida Itália - faltam, e às vezes de modo grave, ao mais fundamental dos princípios da equidade: o do trabalho” Amigos de Deus, 169.

[44] Cfr. A. VÁZQUEZ DE PRADA, op. cit., pág. 321.

[45] Entrevistas..., 75.

[46] Texto de 9/01/1932, citado por J. L. ILLANES, op. cit.. pág. 105

[47] É Cristo que passa, 87.

[48] Via Sacra, 11ª estação, nº4.

[49] “Eu gosto de falar da nossa vida de trabalho, usando uma metáfora, uma parábola: a do burro de nora. Sinto-me atraído por este animal paciente e trabalhador, porque o burro é duro e austero, porque é humilde.

Mas, sobretudo, porque ele trabalha: porque sabe perseverar dia após dia, girando a roda, tirando a água que faz o jardim florir. O burro se contenta com qualquer coisa, até mesmo com pauladas. Ele trabalha e trabalha, e um punhado de palha ou grama é suficiente.

É assim até o fim, porque a história do meu burro termina bem: ele morre trabalhando. E que o destrocem depois, que o esfolem e com a sua pele façam tambores, para uma guerra de paz; e zambombas, para cantar ao Deus Menino” Carta de 15 de outubro de 1958, citada por A. VÁZQUEZ DE PRADA, op. cit. p. 319.

[50] Salvador BERNAL, Mons. Josemaria Escrivá. Perfil biográfico do fundador do Opus Dei.