A liberdade, dom de Deus

Disponibilizamos o áudio em mp3 da homilia “A liberdade, dom de Deus”, pronunciada por São Josemaria no dia 10 de abril de 1956, e publicada em Amigos de Deus.

Opus Dei - A liberdade, dom de DeusFoto de Cathopic

“Não direi que prego mas que grito o meu amor à liberdade pessoal” afirma o autor a dado momento desta homilia. “Com efeito, São Josemaria defendeu com a sua própria conduta e com os seus ensinamentos o valor da liberdade pessoal. Ao falar assim exprimia uma convicção profunda que tem as suas raízes no próprio cerne da fé cristã e por isso apresenta uma força que transcende épocas e culturas”. (Dic. de San Josemaria, cood. Por J. L. Illanes).

Homilia completa:

Tenho-vos recordado muitas vezes aquela cena comovente, relatada pelo Evangelho, em que Jesus se acha na barca de Pedro, de onde falou à multidão. Essa multidão que o seguia abrasou a ânsia de almas que consome o seu coração, e o Divino Mestre quer que os seus discípulos participem já desse zelo. Depois de lhes dizer que se lancem mar adentro - duc in altum! -, sugere a Pedro que lance as redes para pescar.

Não me vou deter agora nos pormenores, tão instrutivos, desses momentos. Desejo que consideremos a reação do Príncipe dos Apóstolos, à vista do milagre: Afasta-te de mim, Senhor, que sou um homem pecador. Uma verdade - não tenho a menor dúvida - que se ajusta perfeitamente à situação pessoal de todos. No entanto, asseguro-vos que, ao tropeçar durante a minha vida com tantos prodígios da graça, operados através de mãos humanas, me senti inclinado, de dia para dia mais inclinado, a gritar: Senhor, não te afastes de mim, pois sem ti não posso fazer nada de bom.

Precisamente por isso, compreendo muito bem aquelas palavras do Bispo de Hipona, que soam como um maravilhoso cântico à liberdade: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti, porque todos nós, tu e eu, temos sempre a possibilidade - a triste desventura - de levantar-nos contra Deus, de rejeitá-lo - talvez com a nossa conduta - ou de exclamar: Não queremos que ele reine sobre nós.

Com o agradecimento de quem percebe a felicidade a que foi chamado, aprendemos que todas as criaturas foram tiradas do nada por Deus e para Deus: tanto as racionais, os homens, ainda que com tanta freqüência percam a razão; como as irracionais, as que calcorreiam sobre a superfície da terra, ou habitam as entranhas do mundo, ou cruzam o azul do céu, algumas delas até fitarem o sol. Mas, no meio desta maravilhosa variedade, apenas nós, os homens - não falo aqui dos anjos - nos unimos ao Criador mediante o exercício da nossa liberdade: podemos prestar ou negar ao Senhor a glória que lhe é devida como Autor de tudo o que existe.

Essa possibilidade compõe o claro-escuro da liberdade humana. O Senhor convida-nos, incita-nos - porque nos ama entranhadamente! - a escolher o bem: Considera que pus hoje diante de ti a vida e o bem, e de outra parte a morte e o mal, para que ames o Senhor teu Deus, e andes pelos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, decretos e preceitos, e assim vivas . Escolhe a vida para que vivas.

Queres fazer o favor de pensar - eu também faço o meu exame - se manténs imutável e firme a tua opção pela Vida? Se, ao ouvires essa voz de Deus, amabilíssima, que te estimula à santidade, respondes livremente que sim? Volvamos o olhar para o nosso Jesus, quando falava às multidões pelas cidades e campos da Palestina. Não pretende impor-se. Se queres ser perfeito..., diz Ele ao jovem rico. Aquele rapaz rejeitou a insinuação, e conta-nos o Evangelho que abiit tristis, que se retirou entristecido. Por isso cheguei certa vez a chamar-lhe ave triste: perdeu a alegria porque se negou a entregar a sua liberdade a Deus.

Consideremos agora o momento sublime em que o Arcanjo São Gabriel anuncia a Santa Maria o desígnio do Altíssimo. A nossa Mãe escuta, e a seguir pergunta, para compreender melhor o que o Senhor lhe pede; depois vem a resposta firme: Fiat!- faça-se em mim segundo a tua palavra! -, o fruto da melhor liberdade: a de decidir-se por Deus.

Em todos os mistérios da nossa fé católica adeja este cântico à liberdade. A Trindade Beatíssima tira do nada o mundo e o homem, num livre esbanjamento de amor. O Verbo desce do Céu e toma a nossa carne com o timbre admirável da liberdade na submissão: Eis que venho, segundo está escrito de mim no princípio do livro, para cumprir, ó Deus, a tua vontade. Quando chega a hora marcada por Deus para salvar a humanidade da escravidão do pecado, contemplamos em Getsêmani Jesus Cristo que sofre dolorosamente, até derramar um suor de sangue, e que aceita espontânea e rendidamente o sacrifício que o Pai lhe reclama: Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda diante dos tosquiadores. Já o havia anunciado aos seus, numa dessas conversas em que derramava o seu Coração, para que os que o amam soubessem que Ele é o Caminho - não há outro - para chegar ao Pai: Por isso meu Pai me ama, porque dou a minha vida para outra vez a assumir. Ninguém a tira de mim, mas eu por mim mesmo a dou, e tenho o poder de a dar e o poder de a reassumir.

Jamais poderemos entender até o fim essa liberdade de Jesus Cristo, imensa - infinita - como o seu amor. Mas o tesouro preciosíssimo do seu generoso holocausto deve levar-nos a pensar: Por que me deixaste, Senhor, este privilégio, que me torna capaz de seguir os teus passos, mas também de te ofender?

Chegamos assim a calibrar o reto uso da liberdade, se a encaminhamos para o bem; e a sua errônea orientação quando, com essa faculdade, o homem se esquece e se afasta do Amor dos amores. A liberdade pessoal - que defendo e defenderei sempre com todas as minhas forças - leva-me a perguntar com convicta segurança e também com a consciência da minha própria fraqueza: Que esperas de mim, Senhor, para que eu voluntariamente o cumpra?

Responde-nos o próprio Cristo: Veritas liberabit vos, a verdade vos fará livres. Que verdade é essa, que inicia e consuma em toda a nossa vida o caminho da liberdade? Eu vo-la resumirei, com a alegria e com a certeza que procedem da relação entre Deus e as suas criaturas: saber que saímos das mãos de Deus, que somos objeto da predileção da Trindade Beatíssima, que somos filhos de tão grande Pai.

Eu peço ao meu Senhor que nos decidamos a tomar consciência disso, a saboreá-lo dia a dia. Assim nos conduziremos como pessoas livres. Não o esqueçamos: aquele que não se sabe filho de Deus desconhece a sua verdade mais íntima e, na sua atuação, não possui o domínio e o senhorio próprios dos que amam o Senhor acima de todas as coisas.

Convencei-vos de que, para ganhar o céu, temos que empenhar-nos em consegui-lo livremente, com uma decisão plena, constante e voluntária. Mas a liberdade não se basta a si mesma: precisa de um norte, de um roteiro. Não é possível que a alma caminhe sem ninguém que a governe. E para isso foi redimida, de modo que tenha por Rei Cristo, cujo jugo é suave e cuja carga é leve (Mt XI, 30), e não o diabo, cujo reino é pesado.

Temos de repelir o equívoco dos que se conformam com uma triste gritaria: Liberdade! liberdade! Muitas vezes, nesse mesmo clamor se esconde uma trágica servidão, porque a opção que prefere o erro não liberta; só Cristo é que liberta, porque só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Perguntemo-nos de novo, na presença de Deus: Senhor, para que nos proporcionaste este poder? Por que depositaste em nós essa faculdade de escolher-te ou rejeitar-te? Tu desejas que empreguemos acertadamente esta nossa capacidade. Senhor, que queres que eu faça? E a resposta é diáfana, precisa: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e com toda a tua alma, e com toda a tua mente.

Estamos vendo? A liberdade adquire o seu sentido autêntico quando é exercida em serviço da verdade que resgata, quando a gastamos em proclamar o Amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões. Cada dia aumentam as minhas ânsias de anunciar em altos brados esta insondável riqueza do cristão: a liberdade da glória dos filhos de Deus! Nisso se resume a vontade boa que nos ensina a perseguir o bem, depois de distingui-lo do mal.

Gostaria de que meditássemos num ponto fundamental que nos coloca diante da responsabilidade da nossa consciência. Ninguém pode escolher por nós. Este é o grau supremo da dignidade nos homens: que se encaminhem para o bem por si próprios, não por outros. Muitos de nós herdamos dos pais a fé católica e, por graça de Deus, desde que recebemos o Batismo, recém-nascidos ainda, começou-nos na alma a vida sobrenatural. Mas temos de renovar ao longo da nossa existência - e mesmo ao longo de cada jornada - a determinação de amar a Deus sobre todas as coisas. É cristão, digo verdadeiro cristão, aquele que se submete ao império do único Verbo de Deus, sem estabelecer condições a essa submissão, disposto a resistir à tentação diabólica com a mesma atitude de Cristo: Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.

O amor de Deus é ciumento; não se satisfaz se comparecemos com condições ao encontro marcado: espera com impaciência que nos entreguemos por inteiro, que não guardemos no coração recantos obscuros, a que não conseguem chegar a felicidade e a alegria da graça e dos dons sobrenaturais. Talvez possais pensar: responder que sim a esse Amor exclusivo não é porventura perder a liberdade?

Com a ajuda do Senhor, que preside a este tempo de oração, com a sua luz, espero que para vós e para mim este tema fique ainda mais definido. Cada um de nós já chegou a experimentar que servir a Cristo Nosso Senhor supõe dor e fadiga. Negar esta realidade significaria não nos termos encontrado com Deus. A alma enamorada sabe que, quando chega essa dor, se trata de uma impressão passageira, e em breve descobre que o peso é leve e a carga suave, porque é Ele que os carrega aos ombros, assim como abraçou o madeiro da cruz quando estava em jogo a nossa felicidade eterna.

Mas há homens que não compreendem, que se rebelam contra o Criador - uma rebelião impotente, mesquinha, triste -, que repetem cegamente a queixa inútil de que nos fala o Salmo: Quebremos as suas cadeias e sacudamos de nós o seu jugo. Relutam em cumprir, com heróico silêncio, com naturalidade, sem brilho e sem lamentos, a tarefa dura de cada dia. Não compreendem que a Vontade divina, mesmo quando se apresenta com matizes de dor, de exigências que ferem, coincide exatamente com a liberdade, que reside só em Deus e nos seus desígnios.

São almas que levantam barricadas com a liberdade. A minha liberdade, a minha liberdade! Têm-na, e não a seguem; olham para ela, colocam-na como um ídolo de barro dentro do seu entendimento mesquinho. Isso é liberdade? Que aproveitam dessa riqueza sem um compromisso sério, que oriente toda a existência? Uma conduta assim opõe-se à categoria e à nobreza próprias da pessoa humana. Falta a rota, o caminho claro que informe os passos sobre a terra. Essas almas - vós as tereis encontrado, como eu - deixar-se-ão arrastar depois pela vaidade pueril, pela arrogância egoísta, pela sensualidade.

É uma liberdade que se demonstra estéril ou que produz frutos ridículos, mesmo humanamente. Quem não escolhe - com plena liberdade! - uma norma reta de conduta, cedo ou tarde se verá manipulado pelos outros, viverá na indolência - como um parasita -, sujeito ao que os outros determinem. Prestar-se-á a ser agitado por qualquer vento, e outros resolverão sempre por ele. São nuvens sem água, que os ventos levam de uma parte para outra, árvores outonais, sem fruto, duas vezes mortas, sem raízes, ainda que se escondam por trás de um contínuo palavrório, de paliativos com que tentam esfumar a ausência de caráter, de valentia e de honradez.

Mas ninguém me coage!, repetem obstinadamente. Ninguém? Todos coagem essa liberdade ilusória que não se arrisca a aceitar responsavelmente as conseqüências das atuações livres e pessoais. Onde não há amor de Deus, produz-se um vazio de exercício individual e responsável da liberdade: apesar das aparências, tudo aí é coação. O indeciso, o irresoluto, é como uma matéria plástica à mercê das circunstâncias; qualquer um o molda a seu bel-prazer e, antes de mais nada, as paixões e as piores tendências da natureza ferida pelo pecado.

Lembremo-nos da parábola dos talentos. O servo que recebeu um talento podia - como os seus companheiros - empregá-lo bem, tratar de fazê-lo render, pondo em jogo as qualidades que possuía. E o que é que decide? Preocupa-o o medo de perdê-lo. Muito bem. Mas depois? Enterra-o! E aquilo não dá fruto.

Não esqueçamos esse caso de temor doentio de aproveitar honradamente a capacidade de trabalho, a inteligência, a vontade, o homem todo. Eu o enterro - parece afirmar esse infeliz -, mas a minha liberdade fica a salvo! Não. A liberdade inclinou-se para algo de muito concreto, para a secura mais pobre e árida. Tomou partido, porque não tinha outro remédio senão escolher. Mas escolheu mal.

Nada mais falso do que opor a liberdade à entrega de si, porque essa entrega surge como conseqüência da liberdade. Reparemos: quando uma mãe se sacrifica por amor aos seus filhos, fez uma opção; e, conforme for a medida desse amor, assim se manifestará a sua liberdade. Se esse amor for grande, a liberdade se mostrará fecunda, e o bem dos filhos procederá dessa bendita liberdade, que implica entrega, e procederá dessa bendita entrega, que é precisamente liberdade.

Mas, dir-me-eis, quando conseguimos o que amamos com toda a alma, não mais continuamos a procurar. Desapareceu a liberdade? Asseguro-vos que então é mais operativa do que nunca, pois o amor não se contenta com um cumprimento rotineiro nem se compagina com o fastio ou a apatia. Amar significa recomeçar a servir todos os dias, com obras de carinho.

Insisto e quereria gravá-lo a fogo em cada um: a liberdade e a entrega de si não se contradizem; apóiam-se mutuamente. A liberdade só pode ser entregue por amor; outro gênero de desprendimento, eu não o concebo. Não é um jogo de palavras, mais ou menos acertado. Na entrega voluntária, em cada instante dessa dedicação, a liberdade renova o amor, e renovar-se é ser continuamente jovem, generoso, capaz de grandes ideais e de grandes sacrifícios.

Lembro-me de que tive uma grande alegria quando soube que os portugueses chamam aos jovens os novos. E é o que são. Conto-vos este pormenor porque tenho já bastantes anos, mas, ao rezar ao pé do altar ao Deus que alegra a minha juventude, sinto-me muito jovem e sei que nunca chegarei a considerar-me velho, porque, se permanecer fiel ao meu Deus, o Amor me vivificará continuamente; renovar-se-á, como a da águia, a minha juventude.

Por amor à liberdade, atamo-nos. Unicamente a soberba atribui a esses laços o peso de uma cadeia. A verdadeira humildade, que Aquele que é manso e humilde de coração nos ensina, mostra-nos que o seu jugo é suave e a sua carga ligeira. O jugo é a liberdade, o jugo é o amor, o jugo é a unidade, o jugo é a vida, que Jesus Cristo nos ganhou na Cruz.

Quando, ao longo dos meus anos de sacerdócio, não direi que prego, mas grito o meu amor à liberdade pessoal, noto em alguns um gesto de desconfiança, como se suspeitassem que a defesa da liberdade traz no seu bojo um perigo para a fé. Tranqüilizem-se esses pusilânimes. Só atenta contra a fé uma interpretação errônea da liberdade, uma liberdade sem qualquer fim, sem norma objetiva, sem lei, sem responsabilidade. Numa palavra: a libertinagem. Infelizmente, é isso o que alguns propugnam. Essa reivindicação, sim, constitui um atentado contra a fé.

Por isso, não é correto falar de liberdade de consciência, que equivale a considerar como de boa categoria moral a atitude do homem que rejeita a Deus. Recordamos atrás que podemos opor-nos aos desígnios salvíficos do Senhor; podemos, mas não devemos fazê-lo. E se alguém assumisse essa posição deliberadamente, pecaria, porque estaria transgredindo o primeiro e o mais fundamental dos mandamentos: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração.

Eu defendo com todas as minhas forças a liberdade das consciências, que denota não ser lícito a ninguém impedir que a criatura preste culto a Deus. É preciso respeitar as legítimas ânsias de verdade; o homem tem obrigação grave de procurar o Senhor, de conhecê-lo e adorá-lo, mas ninguém na terra deve permitir-se impor ao próximo a prática de uma fé que este não possui; assim como ninguém pode arrogar-se o direito de maltratar quem a recebeu de Deus.

A nossa Santa Mãe a Igreja pronunciou-se sempre pela liberdade e rejeitou todos os fatalismos, antigos e menos antigos. Esclareceu que cada alma é dona do seu destino, para bem ou para mal: E os que não se afastaram do bem irão para a vida eterna; os que praticaram o mal, para o fogo eterno. Sempre nos impressiona esta terrível capacidade que possuímos tu e eu - que todos possuímos -, e que revela ao mesmo tempo o sinal da nossa nobreza. A tal ponto o pecado é um mal voluntário, que de modo algum seria pecado se não tivesse o seu princípio na vontade. Esta afirmação goza de tal evidência que nela estão de acordo os poucos sábios e os muitos ignorantes que habitam o mundo.

Volto a levantar o coração em ação de graças ao meu Deus, ao meu Senhor, porque nada o impedia de nos ter criado impecáveis, com um impulso irresistível para o bem, mas considerou que seriam melhores os seus servidores se livremente o servissem. Como é grande o amor, a misericórdia do nosso Pai! Em face da evidência das suas loucuras divinas pelos seus filhos, quereria ter mil bocas, mil corações mais, que me permitissem viver num contínuo louvor a Deus Pai, a Deus Filho, a Deus Espírito Santo.

Pensemos que o Todo-Poderoso, Aquele que governa o Universo através da sua Providência, não deseja servos forçados, prefere filhos livres. Introduziu na alma de cada um de nós - embora tenhamos nascido proni ad peccatum, inclinados ao pecado, devido à queda dos nossos primeiros pais - uma centelha da sua inteligência infinita, a atração pelo que é bom, uma ânsia de paz perdurável. E faz-nos compreender que a verdade, a felicidade e a liberdade se alcançam quando procuramos que germine em nós essa semente de vida eterna.

Responder “não” a Deus, rejeitar esse princípio de felicidade nova e definitiva, é coisa que ficou nas mãos da criatura. Mas se esta se comporta assim, deixa de ser filho para se tornar escravo. Cada coisa é o que lhe convém segundo a sua natureza. Por isso, quando se move em busca de algo estranho, não atua segundo a sua própria maneira de ser, mas por impulso alheio; e isso é servil. O homem é racional por natureza. Quando se conduz pela razão, procede por movimento próprio, como quem é; e isso é próprio da liberdade. Quando peca, age fora da razão e deixa-se conduzir pelo impulso alheio, está preso em confins alheios, e por isso quem aceita o pecado é servo do pecado (Ioh VIII, 34).

Seja-me permitido insistir nisto. É algo de muito claro e que podemos verificar com freqüência ao nosso redor ou no nosso próprio eu: nenhum homem escapa a um ou outro gênero de escravidão. Uns prostram-se diante do dinheiro; outros adoram o poder; outros, a relativa tranqüilidade do ceticismo; outros descobrem na sensualidade o seu bezerro de ouro. E o mesmo se passa com as coisas nobres. Afadigamo-nos num trabalho, num empreendimento de maiores ou menores proporções, na realização de uma atividade científica, artística, literária, espiritual. Se essas tarefas se levam a cabo com empenho, se existe verdadeira paixão, quem a elas se entrega vive escravo, dedica-se gozosamente ao serviço dessa finalidade.

Escravidão por escravidão - se de qualquer modo temos de servir, já que, quer o admitamos ou não, essa é a condição humana -, nada melhor do que sabermo-nos, por Amor, escravos de Deus. Porque nesse momento perdemos a situação de escravos para nos convertermos em amigos, em filhos. E aqui se manifesta a diferença: enfrentamos as honestas ocupações do mundo com a mesma paixão, com o mesmo empenho que os outros, mas com paz no fundo da alma; com alegria e serenidade, mesmo nas contrariedades. Porque não depositamos a nossa confiança no que passa, mas no que permanece para sempre. Não somos filhos da escrava, mas da livre.

De onde nos vem essa liberdade? De Cristo, Senhor Nosso. Essa é a liberdade com que Ele nos redimiu. Por isso nos ensina: Se o Filho vos obtiver a liberdade, sereis verdadeiramente livres. Nós, cristãos, não temos de pedir emprestado a ninguém o verdadeiro sentido deste dom, porque a única liberdade que salva o homem é cristã.

Gosto de falar da aventura da liberdade, porque é assim que se desenvolve a vossa vida e a minha: livremente - como filhos, insisto, não como escravos -, seguimos a senda que o Senhor marcou a cada um de nós. Saboreamos esta liberdade de movimentos como uma dádiva de Deus.

Livremente, sem coação alguma, porque me vem na gana, eu me decido por Deus. E comprometo-me a servir, a converter a minha existência numa doação aos outros, por amor ao meu Senhor Jesus. Esta liberdade anima-me a clamar que nada na terra me separará da caridade de Cristo.

Deus fez o homem desde o princípio e o deixou nas mãos do seu livre arbítrio (Ecclo XV, 14). Isto não aconteceria se não tivesse o poder de optar livremente. Somos responsáveis perante Deus por todas as ações que praticamos livremente. Não são possíveis aqui os anonimatos; o homem encontra-se diante do seu Senhor, e depende da sua vontade resolver-se a viver como amigo ou como inimigo. Assim começa o caminho da luta interior, que é tarefa para toda a vida, porque, enquanto durar a nossa passagem pela terra, ninguém terá alcançado a plenitude da sua liberdade.

A nossa fé cristã, além disso, leva-nos a assegurar a todos um clima de liberdade, começando por afastar qualquer tipo de enganosas coações na apresentação da fé. Se somos levados à força para Cristo, cremos sem querer; usa-se então de violência, não de liberdade. Sem o querer, pode uma pessoa entrar na Igreja; sem o querer, pode aproximar-se do altar; pode, sem o querer, receber o Sacramento. Mas só pode crer quem quer. É evidente que, tendo-se chegado ao uso da razão, é necessária a liberdade pessoal para entrar na Igreja e para corresponder aos contínuos chamados que o Senhor nos dirige.

Na parábola dos convidados ao banquete, o pai de família, depois de saber que alguns dos que deviam comparecer à festa se desculparam com razões sem razão, ordena ao criado: Vai pelos caminhos e cercados e força a vir - compelle intrare - os que encontrares. Isto não é coação? Não é usar de violência contra a legítima liberdade de cada consciência?

Se meditarmos o Evangelho e ponderarmos os ensinamentos de Jesus, não confundiremos essas ordens com a coação. Vejamos de que modo Cristo insinua sempre: Se queres ser perfeito..., se alguém quiser vir após mim... Esse compelle intrare - obriga-os a entrar - não significa violência física ou moral; reflete o ímpeto do exemplo cristão, que por sua vez manifesta na sua atuação a força de Deus:Vede como o Pai atrai: deleita ensinando, não impondo a necessidade. É assim que atrai para si.

Quando se respira esse ambiente de liberdade, compreende-se claramente que entregar-se ao mal não é uma libertação, mas uma escravidão. Aquele que peca contra Deus conserva o livre arbítrio quanto à liberdade de coação, mas perdeu-o quanto à liberdade de culpa. Revela talvez que se comportou de acordo com as suas preferências, mas não conseguirá pronunciar a voz da verdadeira liberdade, porque se fez escravo daquilo por que se decidiu, e decidiu-se pelo pior, pela ausência de Deus, e nisso não há liberdade.

Repito-vos: não aceito outra escravidão que não a do Amor de Deus. E isto porque, como já vos disse em outras ocasiões, a religião é a maior rebelião do homem que não tolera viver como um animal, que não se conforma - não sossega - se não conhece o Criador, se não procura a sua intimidade. Eu vos quero rebeldes, livres de todos os laços, porque vos quero - Cristo nos quer - filhos de Deus. Escravidão ou filiação divina: eis o dilema da nossa vida. Ou filhos de Deus ou escravos da soberba, da sensualidade, desse egoísmo angustiante em que tantas almas parecem debater-se.

O Amor de Deus marca o caminho da verdade, da justiça e do bem. Quando nos decidimos a responder ao Senhor: a minha liberdade para ti, ficamos livres de todas as cadeias que nos haviam atado a coisas sem importância, a preocupações ridículas, a ambições mesquinhas. E a liberdade - tesouro incalculável, pérola maravilhosa que seria triste lançar aos animais - emprega-se inteira em aprender a fazer o bem.

Esta é a liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Os cristãos que na sua conduta se revelassem encolhidos de medo - coibidos ou invejosos - perante a libertinagem dos que não acolheram a Palavra de Deus, demonstrariam ter um conceito miserável da nossa fé. Se cumprirmos de verdade a Lei de Cristo - se nos esforçarmos por cumpri-la, porque nem sempre o conseguiremos -, descobrir-nos-emos dotados dessa maravilhosa galhardia de espírito que não precisa de ir buscar em outro lugar o sentido da mais plena dignidade humana.

A nossa fé não é um peso nem uma limitação. Que pobre idéia da verdade cristã manifestaria quem raciocinasse assim! Ao decidirmo-nos por Deus, não perdemos nada, ganhamos tudo: quem à custa da sua alma conservar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de mim, voltará a encontrá-la.

Tiramos a carta que ganha, o primeiro prêmio. Quando alguma coisa nos impedir de compreendê-lo com clareza, examinemos o interior da nossa alma. Talvez exista pouca fé, pouca relação pessoal com Deus, pouca vida de oração. Temos de pedir ao Senhor - através da sua Mãe e Mãe nossa - que nos aumente o seu Amor, que nos permita experimentar a doçura da sua presença. Porque só quando se ama é que se chega à liberdade mais plena: a de não querer abandonar nunca, por toda a eternidade, o objeto dos nossos amores.